Os dirigentes turcos sabem que a economia retira importantes dividendos de uma demografia pujante e por isso o presidente Erdogan não se coíbe de apelar às famílias para que tenham mais filhos ou de condenar veementemente a prática do aborto. Ironicamente para um país que viu barrada a sua entrada na UE, graças à estabilidade e prosperidade que o país conseguiu alcançar, e apesar dos muitos focos de instabilidade em seu redor e mesmo no seu seio, a Turquia tem funcionado como uma porta corta-fogo da Europa face aos conflitos e ao terrorismo do Médio-Oriente. Oxalá que, apesar dos riscos internos e de toda a instabilidade em seu redor, a Turquia consiga estabilizar sem recorrer a excessos de autoritarismo como a reintrodução da pena de morte.

 

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Ao longo do tempo, a Turquia constatou que a Europa nunca lhe iria abrir as suas portas, isto é, o seu vasto mercado. Desde que Erdogan e o seu Partido da Justiça e Desenvolvimento conquistaram o poder, o país mudou de rumo e decidiu apostar nos seus recursos endógenos: virou-se para dentro, para a sua identidade cultural, para o seu próprio mercado interno e para os valores tradicionais ligados à família e à religião. Essa aposta simples, distinta do modelo meramente consumista da Europa, traduziu-se num ciclo virtuoso de crescimento económico e crescimento demográfico que se estimulam mutuamente. Os dirigentes turcos sabem que a economia retira importantes dividendos de uma demografia pujante e por isso o presidente Erdogan não se coíbe de apelar às famílias para que tenham mais filhos ou de condenar veementemente a prática do aborto. Ironicamente para um país que viu barrada a sua entrada na Europa, graças à estabilidade e prosperidade que o país conseguiu alcançar, e apesar dos muitos focos de instabilidade em seu redor e mesmo no seu seio, a Turquia tem funcionado como uma porta corta-fogo da Europa face aos conflitos e ao terrorismo do Médio-Oriente. Oxalá que, apesar dos riscos internos e de toda a instabilidade em seu redor, a Turquia consiga estabilizar sem recorrer a excessos de autoritarismo como a reintrodução da pena de morte.

A Turquia tem uma população superior a qualquer país europeu, à exceção da Rússia Com perto de 80 milhões de habitantes, tem uma dimensão populacional equivalente à Alemanha e próxima do maior dos vizinhos mediterrânicos da Europa, o Egipto. A sua população é jovem com uma idade média na casa dos 30 anos contra mais de 40 anos na União Europeia. A Turquia possui uma economia dinâmica e diversificada que tem crescido a um ritmo muito superior ao da Europa. O investimento em infraestruturas tem sido notável, em especial nos últimos 15 anos, e a política económica levada a cabo tem possibilitado a muitos milhões de famílias turcas uma melhoria constante do seu nível de vida, o acesso a habitação moderna e a padrões de consumo que se aproximam, gradualmente, dos europeus.

A Turquia tem também uma área geográfica maior que a de qualquer país europeu. Apesar dos conflitos militares gravíssimos que têm sido uma constante em seu redor – desde a atual guerra cruel na Síria e parte do Iraque até conflitos que duram há décadas como o Israelo-Árabe, passando pela guerra entre Rússia e Ucrânia no leste deste país ou pelas disputas no Cáucaso – a Turquia tem tido um papel moderador e tem funcionado como zona tampão em relação a esses conflitos. Na realidade a Turquia, membro da Nato praticamente desde a sua fundação, tem sido muitas vezes uma espécie de porta corta-fogo que protege a Europa da disseminação de tensões e conflitos, sobretudo com origem no Médio-Oriente.

Apesar do papel construtivo que ao longo de muito tempo tem sido desempenhado pela Turquia, durante décadas o país tentou sem sucesso aderir à União Europeia, antes Comunidade Económica Europeia. O pedido de adesão inicial ocorreu há 30 anos, um ano após a entrada, em 1986, de Portugal e Espanha na CEE. A vontade turca de aceder de pleno direito a um mercado rico e vasto como o europeu esbarrou sempre com uma série de receios e interesses próprios de diversos países como a Grécia e, sobretudo, a França, receosa de que o centro de gravidade da Europa se alterasse e que o seu lugar privilegiado aos olhos da Alemanha fosse posto em causa. Perdida a esperança no mercado europeu, a Turquia foi gizando, pouco a pouco, uma alternativa muito eficaz e autónoma: criar um mercado interno forte e uma economia bem estruturada. A Turquia percebeu que as manobras dilatórias permanentes da Europa, a maior parte das vezes com pretextos de natureza pretensamente cultural, não lhe permitiriam avançar, e avançou sozinha, com as suas próprias armas, ou seja com o seu próprio mercado interno, a sua força de trabalho jovem, os seus empresários dinâmicos, o consumo das suas famílias, bem mais numerosas que as europeias.

Erdogan lidera a Turquia praticamente desde a viragem do século tendo sido sucessivamente reeleito. A todos quantos, a uma distância confortável do Médio-Oriente, criticam duramente a Turquia e os seus governantes, quer por limitações a direitos e liberdades individuais quer pelo estilo autoritário da liderança, deveria talvez perguntar-se: que liberdade de expressão, que liberdades individuais, quantos presos e quantos mortos teria causado o golpe de Estado de 15 de julho do ano passado se tivesse conseguido depôr o regime? E poderia também perguntar-se: como explicar que um país de rendimento intermédio como a Turquia tenha capacidade para acolher eficazmente e condignamente milhões de refugiados da guerra na Síria, e a Europa, no seu conjunto, a muito custo e a conta-gotas, não consiga receber mais que umas centenas de milhares?

A Turquia tem vindo a adotar, ao longo dos anos, políticas e posições assumidamente natalistas e favoráveis à família. Os governantes turcos têm aconselhado abertamente as famílias a que tenham mais filhos, tendo o próprio chefe de estado afirmado que seria positivo haver mais famílias numerosas. O presidente Erdogan chegou mesmo a criticar explicitamente o controle de natalidade, designando-o como uma espécie de traição e uma armadilha para a nação. Por fim, num país em que o rácio de abortos é muito inferior ao da Europa, disse ainda, condenando a prática do aborto, em afirmações que escandalizaram a imprensa ocidental: “Não há diferença entre matar uma criança no ventre materno e matar um bébé após o seu nascimento”. Para depois concluir: “ Não há Humanidade sem Maternidade”.

16/4/2017

JG