Abortion Rate

José Maria Duque, em artigo no blogue Nós os Poucos, comenta e desmonta as afirmações e alegações do Diretor Geral de Saúde que, em final de mandato, vem, paradoxalmente, falaciosamente, e tardiamente, arvorar-se em opositor do aborto e congratular-se com a sua suposta regressão.

Francisco George diz que a lei sobre a interrupção voluntária da gravidez foi um sucesso 

Portugal é atualmente o país europeu com menos abortos por cada mil nascimentos vivos, o que vem demonstrar que a interrupção voluntária da gravidez foi "um grande sucesso", considera o diretor-geral da Saúde.

A cerca de um mês de acabar a sua carreira de 44 anos na administração pública, Francisco George fez uma retrospetiva de alguns dos casos de sucesso na saúde pública, nos quais inclui a interrupção voluntária da gravidez (IVG).

Francisco George: o aborto visto da Torre de Marfim.

Por José Maria Duque

http://nosospoucos.blogspot.pt

Fomos brindados com umas maravilhosas e extraordinárias declarações do responsável da Direcção-Geral de Saúde (a 14 de setembro). Segundo Francisco George a lei do aborto é um "sucesso".

Eu, que não possuo a clarividência de Francisco George, não consigo deixar de perguntar: qual é o sucesso da lei? São as 169.000 crianças que foram eliminadas na barriga da mãe? É o facto de 1 em cada 5 gravidezes terminar em aborto? As repetições serem, pelo menos (porque só se sabe se é uma repetição se a mulher o declarar) 1 em cada 3 abortos?

Ou o sucesso é o facto de em Portugal haver mulheres a abortar para não serem despedidas? Ou de mulheres que abortam para não levarem sovas dos companheiros? Ou para não serem expulsas de casa dos pais?

Ou será que o sucesso da lei é não haver qualquer tipo de medida de apoio às grávidas em dificuldade? Será que é a proibição da Direcção-Geral de Saúde de haver qualquer informação sobre o apoio a quem quer manter o seu bebé nos hospitais e centros de saúde? Se calhar o sucesso é a ausência de acompanhamento e aconselhamento no Sistema Nacional de Saúde às grávidas em risco de abortar.

Eu percebo que quem está na sua torre de marfim, olhando apenas para relatórios de números escolhidos à conveniência da sua ideologia, possa sentir-se tentado achar que a lei que liberalizou o aborto é um sucesso. Mas seria de esperar que a pessoa responsável pela Direcção-Geral de Saúde tivesse um pouco mais de conhecimento do terreno.

Mas como pouco depois de anunciar o sucesso da lei, Francisco George afirma que antes recebia alguns protestos mas agora "já não se fala do assunto", é fácil perceber que o senhor Director Geral vive completamente alheado da realidade. Alheado das dezenas de instituições, que com poucos recursos, ajudam centenas e centenas de mulheres e crianças em risco de aborto. Alheado da Lei de Apoio à Maternidade e Paternidade, que nasceu da iniciativa de 50 mil cidadãos e que foi rapidamente desfeita pela esquerda, que há dois anos procurou alterar a lei do aborto. Alheado dos milhares de pessoas que todos os anos participam na Caminhada Pela Vida. Alheado do estudo que todos os anos a Federação Portuguesa Pela Vida apresenta sobre os números do aborto (baseados nos números da DGS, sendo que ainda estamos à espera do 2016...). Alheado dos muitos encontros, conferências, debates que todos os anos são feitos em Portugal sobre o aborto.

O professor Francisco George que me desculpe, mas o único sucesso que pudemos falar na lei do aborto é o seu sucesso em branquear a chaga social que é o aborto livre em Portugal. Se algum dia quiser descer da sua torre de marfim e voltar a tomar contacto com a realidade, o país, e sobretudo as crianças por nascer, agradecem!