Incndios

Uma opinião, entre muitas, sobre o flagelo dos incêndios em Portugal:

"Muito provavelmente a solução para tudo isto passará pela palavra que ninguém quer ouvir e que ninguém ousa pronunciar: agricultura, agricultura e mais agricultura. Todos sabem que é preciso derramar muitas centenas de milhões, alguns milhares de milhões mesmo, de euros por ano, em estímulos financeiros adicionais para ter uma parte substancial do país protegido pela agricultura, e sabemos que esse é o caminho das pedras. Nenhum político se atreve a assumir que tem que fazer essa revolução.  Mas o mero reforço de prevenção e a mera cosmética legislativa não vão ser suficientes. E já sabemos que, em política, é muito mais fácil ir discutindo assuntos laterais e pequenas questiúnculas ou mesmo voltar, em breve, à rotina das causas fraturantes, continuar a fazer números de circo, defesa dos direitos dos animais de companhia, barrigas de aluguer, mudanças de sexo... E, claro, continuar a fazer da morte uma ideologia e um programa de ação, com o aborto e a eutanásia sempre na vanguarda. Muito mais complicado é defender a pátria, defender o território, defender também a família e a demografia desta nação a definhar. Mas isso não é para políticos de 2ª nem para cidadãos distraídos, é para verdadeiros estadistas e para portugueses do coração." 

A morte voltou a ceifar muitas vidas no Centro de Portugal em pleno outubro, 45 mortos. Incêndios florestais de proporções dantescas semearam o pânico e a destruição durante a tarde e noite de domingo 15 de outubro e durante o dia seguinte. No total do ano de 2017 5% do território português terá ardido. Além das perdas em vidas humanas e das perdas intangíveis em sofrimento de todos os atingidos, o país terá sofrido prejuízos de 2, 3, quem sabe 4 mil milhões de euros, em património edificado, empresas, estruturas agrícolas, efetivos pecuários, infraestruturas, também na própria imagem externa de Portugal. Provavelmente o equivalente a 1 ou 2% do PIB nacional ter-se-á esfumado em milhares de incêndios ao longo do verão e início do outono.

Já tudo foi dito e comentado sobre estes incêndios que, a despeito da sua violência, não atingiu de forma significativa nem os bens, nem a vidas do dia-a-dia da grande maioria dos portugueses, que vivem nas cidades do litoral. Aliás, Portugal há muito que se transformou num país desequilibrado em que o grosso da riqueza e população nacional se concentra numa faixa de terra litoral cada vez mais de costas voltadas para o seu próprio território interno, que funciona um pouco como as traseiras abandonadas da casa. Se por um lado uma percentagem muito elevada da população, e dos governantes, não viu nos grandes incêndios deste verão, até certa altura, uma ameaça imediata, nem ao seu modo de vida, nem ao modelo sócio-economico vigente, a repetição de tragédias impossíveis de esquecer, como Pedrógão Grande e agora o 15 de outubro, tornou evidente que o paradigma atual de sociedade, muito virado para o exterior e muito dependente do exterior, está esgotado. Bem podem os políticos vir dizer que os custos relacionados com as tragédias deste verão não vão contar para o deficit público ou que terá necessariamente de haver dinheiro para indemnizar, reconstruir, prevenir, etc… Todos sabem, e é claro como água, que todos esses custos, todo esse endividamento, a existir, será pago pelos contribuintes, estejam eles próximos ou afastados dos incêndios, e também é evidente que, pelo contrário, se nada se fizer, para o ano será igual ou pior. Em suma, foi criado um enorme passivo ambiental e económico que reside no abandono do território, no desordenamento do território, no desmazelo do território, e que todos teremos de pagar. O território é hoje um fardo, em vez de ser um ativo produtivo e rentável. Aliás, nalguns casos, vivem-se situações de quase esquizofrenia e bipolaridade, entre um mundo que não é mais do que uma turismolândia, em certos pontos do litoral, e outro que, infelizmente, se tornou na incendiolândia de Portugal, e que consiste em centenas de milhares de hectares de serras e montes e vales cheios de eucaliptos, muitos deles agora sob forma espectral, a amaldiçoar quilómetros e quilómetros e quilómetros por todo o interior norte do país.

Em 1755, quando Lisboa sucumbiu por força do terramoto e maremoto, uma força humana inusitada dos seus habitantes e de governantes com pulso liderados pelo Marquês de Pombal, conseguiu fazer a cidade renascer das cinzas e conseguiu encontrar na construção de prédios de tipo “gaiola” uma solução estrutural e duradoura para o risco sísmico da cidade. As mudanças estruturais normalmente exigem mudanças de paradigma. Hoje em dia, quando os políticos, eleitos democraticamente, deixam de saber como resolver os problemas, ou deixam de ter suporte para mudanças radicais, enviam os problemas para o saco das chamadas reformas estruturais, que ninguém sabe exatamente quais são, e que também ninguém sabe quem irá levar a cabo, mas cuja simples menção afasta o receio de ter de mudar de vida.

Oxalá tudo seja diferente desta vez, e que as medidas elencadas para solucionar a maldição dos incêndios tenham algum efeito, oxalá que não signifiquem apenas que alguma coisa tem que mudar e ser anunciada para que tudo fique na mesma. Mas chavões como a Reforma da Floresta, apesar da sua ressonância, querem dizer o quê?: mudar de eucalipto para pinheiro, depois de pinheiro para choupo, depois para outra espécie qualquer? Vamos continuar a semear combustível e persistir nos mesmos erros vezes em fim. Perguntem ao Arquiteto Gonçalo Ribeiro Teles ou leiam e ouçam o que ele dizia há 20, 30 anos e talvez se perceba onde está o caminho.

Muito provavelmente a solução para tudo isto passará pela palavra que ninguém quer ouvir e que ninguém ousa pronunciar: agricultura, agricultura e mais agricultura. Todos sabem que é preciso derramar muitas centenas de milhões, alguns milhares de milhões mesmo, de euros por ano, em estímulos financeiros adicionais para ter uma parte substancial do país protegido pela agricultura, e sabemos que esse é o caminho das pedras. Nenhum político se atreve a assumir que tem que fazer essa revolução. É muito mais fácil ir discutindo pequenas questiúnculas ou então liderar causas fraturantes, continuar a fazer números de circo com a defesa dos animais de companhia, ou as barrigas de aluguer, ou as mudanças de sexo. Ou pior ainda, fazer da morte uma ideologia e um programa de ação, com o aborto e a eutanásia. Muito mais complicado é defender a pátria, defender o território, defender também a família e a demografia desta nação a definhar. Mas isso não é para políticos de 2ª nem para cidadãos distraídos, é para verdadeiros estadistas e para portugueses do coração.

JG

22 out 2017