B Immigration

Não, não se trata de futebol. 50 anos depois de Maio de 68, o mundo continua a girar e a Europa, a nossa velha Europa, persiste em prosseguir a sua própria eutanásia demográfica. A aprovação por referendo da eliminação da emenda constitucional que vedava o aborto na Irlanda foi apenas mais um pequeno detalhe, embora com uma forte carga simbólica, do processo de autodestruição que a Europa continua a infligir a si própria. Foi apenas mais um prego no caixão.

O definhar da Europa tem uma razão de ser endógena e interna que consiste na recusa obstinada da natalidade e da renovação de gerações, desde há décadas, com atitudes sociais, políticas, legislativas, de clara agressão à família e aos valores morais e religiosos que outrora definiam a Europa. O enfraquecimento do velho continente foi-se traduzindo progressivamente numa perda de poder geo-estratégico, económico, financeiro, cultural, militar, enfim, a todos os níveis. A Europa perdeu voz e poder na cena mundial, de forma gritante.

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Marrocos cortou relações diplomáticas com o Irão em início de maio. Um dos piores e mais assustadores cenários que as autoridades francesas, e as espanholas porventura também, terão nos seus planos de contingência, será o de uma guerra no Magrebe, dado que essa sim significaria uma invasão de migrantes muito mais avassaladora que a da guerra na Síria, significaria, para a França, provavelmente, ter o seu território “inundado” de refugiados. Não foi por acaso que o Irão esteve no topo da agenda da visita de Macron a Washington em maio e não é de forma neutra e desinteressada que a França faz tudo o que pode para manter o acordo nuclear do Irão em vigor.

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Não, não se trata de futebol. 50 anos depois de Maio de 68, o mundo continua a girar e a Europa, a nossa velha Europa, persiste em prosseguir a sua própria eutanásia demográfica. A aprovação por referendo da eliminação da emenda constitucional que vedava o aborto na Irlanda foi apenas mais um pequeno detalhe, embora com uma forte carga simbólica, do processo de autodestruição que a Europa continua a infligir a si própria. Foi apenas mais um prego no caixão.

O definhar da Europa tem uma razão de ser endógena e interna que consiste na recusa obstinada da natalidade e da renovação de gerações, desde há décadas, com atitudes sociais, políticas, legislativas, de clara agressão à família e aos valores morais e religiosos que outrora definiam a Europa. O enfraquecimento do velho continente foi-se traduzindo progressivamente numa perda de poder geo-estratégico, económico, financeiro, cultural, militar, enfim, a todos os níveis. A Europa perdeu voz e poder na cena mundial, de forma gritante.

O processo de implosão começou há muito mas todos os anos, e todos os dias, se manifestam fenómenos sintomáticos dessa realidade. Primeiro, na economia, aos portos e aos mercados do continente europeu chegam, permanentemente, centenas de milhões de dólares em produtos fabricados em todas as partes do mundo e vendidos com custos mais baixos no mercado europeu. A Europa perde, tendencialmente, competitividade há muito tempo, e está a ser invadida permanentemente por produtos de países terceiros, e ela própria vai sendo controlada e comprada, em grandes tranches, por investidores de todo o mundo. Segundo, na imigração,desde há décadas, continuamente aportam à Europa milhares de milhares de imigrantes, por razões económicas, e de refugiados por razões políticas ou fugindo de guerras no Médio-Oriente, em África. As migrações que se dirigiam à Europa em décadas passadas tinham por base uma alteração relativamente ordenada dos mercados de trabalho nos países mais ricos do continente. Hoje em dia o fluxo de migrantes é tão intenso, tão desorganizado e tão descontrolado, que não há já capacidade de integração e absorção de forma disciplinada desses migrantes em lado nenhum. Estima-se que a França tenha neste momento pelo menos 1 milhão de imigrantes ilegais. Itália, onde o fluxo é cada vez mais forte, terá para já cerca de meio milhão mas o país está na linha da frente da entrada de migrantes e refugiados vindos pelo Mediterrâneo. Terceitro, além dos fluxos de mercadorias, e do afluxo de imigrantes, também o influxo de drogas e atividades criminosas vai crescendo paulatinamente. O volume de apreensões de droga bate recordes, por exemplo em Espanha, mas isso é apenas a ponta do iceberg daquilo que os jovens e adultos europeus consomem e que em muito contribui, não só para a decadência social a que se assiste como para o florescimento de redes de crime organizado e para o financiamento de redes terroristas cujas atividades regularmente afetam a Europa com atentados que se tornaram, tristemente, quase numa rotina do dia-a-dia.

As consequências políticas do processo de desagregação da Europa são profundas. A saída do Reino Unido da União Europeia ou a recuperação da Crimeia pela Rússia são já assuntos ultrapassados. Na ordem do dia está a tomada de posse de um governo italiano de extrema-direita cujo programa promete uma revisão de alto a baixo de tudo aquilo que se julgava inquestionável na Europa, incluindo a própria moeda europeia. Em França, há um ano atrás, a extrema-direita não ganhou eleições mas o cenário partidário tradicional colapsou, o Partido Socialista foi varrido do mapa político e a direita tradicional foi substituída por uma nova solução que ainda não deu quaisquer provas concretas, alternativa essa chamada Emmanuel Macron. As mudanças de fundo no cenário político-partidário de países como a França ou a Itália, ou a Áustria ou antes dela a Hungria, têm muito a ver com o principal receio que atormenta a sociedade e o eleitorado nesses países: a imigração. É esse o tema que move montanhas. Imigração significa, para a antiga classe média europeia, várias coisas: insegurança, choque cultural, desconforto social, em muitos casos aumento do nível de criminalidade, em subúrbios problemáticos, receio de atos terroristas, perdas de emprego, perdas de estatuto, perdas de oportunidades, em especial para os estratos mais desfavorecidos no limiar inferior da ex-classe média. No caso concreto de Itália, o facto de a França, e outros vizinhos, bloquearem o mais possível a entrada ou passagem de imigrantes pelo seu território, provocou ao longo dos últimos anos um avolumar do problema para os Italianos, inicialmente bastante tolerantes com a imigração, e levando a cabo um esforço enorme de socorro e salvamento na rota do Mediterrâneo mas para quem, sem apoio dos seus vizinhos, chegou também a hora de Itália dizer basta.

As comunidades imigrantes, em particular as de confissão muçulmana, estão crescentemente organizadas na Europa e vão tomando cada vez mais o lugar de uma Europa descristianizada que há muito perdeu as suas raízes religiosas. A tomada de posse do novo governo espanhol, por exemplo, já teve lugar sem o tradicional juramento sobre a Bíblia e sem referência a qualquer aspeto religioso, num dos países que em tempo foi dos mais fervorosamente católicos do mundo. Na Alemanha, em sentido contrário, e já em reação a esta perda de referências, a sensação de perda de valores tradicionais é tão grande que o governo regional da Baviera, liderado pelos democrata-cristãos do CSU e pressionado pelo partido de extrema-direita AfD (Aliança para a Alemanha), decretou a colocação de crucifixos em todos os edifícios públicos Bávaros, incluindo tribunais, escolas, hospitais. No âmbito político-partidário e eleitoral, outros fenómenos extremamente sintomáticos das mudanças demográficas, sociológicas e culturais em curso se estão a desenrolar. Na Holanda, o partido islamista pró-turco Denk (“Pensar” em holandês, “Igualdade” em turco) conquistou vários lugares no parlamento nacional nas últimas eleições, em março de 2017. Na Bélgica, por seu turno, haverá eleições regionais e locais em outubro próximo e uma força política islâmica posicionou-se já para a disputa eleitoral. Trata-se do partido “ISLAM”, cujo acrónimo significa Integridade, Solidariedade, Liberdade, Autenticidade e Moralidade, precisamente um conjunto de pontos fracos que os muçulmanos apontam a uma Europa decadente e a-confessional. Na Alemanha, por sua vez, o apoio da importante comunidade imigrante ao presidente turco Erdogan é enorme mas, mais surpreendentemente, na própria França, onde essa comunidade é muito menos representativa, a Turquia apadrinhou a criação de um partido pró-turco (“Parti Égalité Justice”) que já concorreu às eleições do ano passado mas que poderá, de hoje para amanhã, converter-se numa plataforma pan-islâmica que inclua também a  importantíssima comunidade de Argelinos de várias gerações (5 milhões?) que vivem em França. Entretanto o establishment francês e os seus media, continuam a tratar de forma sobranceira a Turquia e o seu líder Erdogan, a despeito de este ser uma das forças mais poderosas de estabilização no Médio-Oriente tendo em conta o mega-barril de pólvora que os seus vizinhos representam, seja Israel, a Rússia, o Irão ou a Arábia Saudita.

Ainda no que diz respeito aos Argelinos e à Argélia, a permanente tensão entre o Irão e a Arábia Saudita chegou em abril passado às costas atlânticas africanas, sob a forma do reacender da rivalidade e do conflito entre Marrocos e a Argélia, em torno da questão do apoio à independência do Sahara Ocidental, que divide as duas potências do Magrebe. Na realidade, Marrocos acusou Argel de ter deixado que a embaixada Iraniana acolhesse conselheiros militares do Hezbollah com vista a dar apoio à Frente Polisário, que domina parte do Sahara Ocidental, e reclama a devolução do território restante, nas mãos de Marrocos. Em contrapartida, a Argélia acusou Rabat de estar a usar informações facultadas pelos serviços secretos israelitas, a Mossad, e de estar a espiar, e a incriminar de forma falaciosa, o Irão e a Argélia, com apoio Sionista. Marrocos cortou relações diplomáticas com o Irão em início de maio. Um dos piores e mais assustadores cenários que as autoridades francesas, e as espanholas porventura também, terão nos seus planos de contingência, será o de uma guerra no Magrebe, dado que essa sim significaria uma invasão de migrantes muito mais avassaladora que a da guerra na Síria, significaria, para a França, provavelmente, ter o seu território “inundado” de refugiados. Não foi por acaso que o Irão esteve no topo da agenda da visita de Macron a Washington em maio e não é de forma neutra e desinteressada que a França faz tudo o que pode para manter o acordo nuclear do Irão em vigor.

O Mundo está em forte convulsão, a Europa está em profundo declínio, e Portugal está muitas vezes alheado do que se passa. Lamentavelmente, a crise que temos à porta vai certamente ter consequências nefastas para todos, e não resulta senão dos próprios erros da Europa, que esta teima em não corrigir.

Editorial

Junho 2018