E Demographic Crisis

Editorial

Agosto 2018

"... As ideias mais ou menos milagreiras de PSD e PS, sobre demografia, foram, pouco depois de enunciadas, desmontadas em poucos minutos por alguns jornalistas e analistas um pouco mais motivados para debater a questão nos diversos fóruns mediáticos. No caso do PSD perguntava-se, por exemplo, de onde viria o dinheiro (10 mil euros por filho), de que horizonte temporal se estaria a falar. 20 anos? Mas isso, então, não é mais do que um pequeno aumento do velhinho “abono de família”… E será que os casais jovens, perante o incentivo de 50 ou 70 € mensais, irão mesmo decidir ter mais filhos? No caso do PS, outras perplexidades. Imigração? É um pau de 2 bicos, uma ideia muito arriscada que tem gerado crescentes fobias um pouco por toda a Europa. Por que razão haveria de resultar em Portugal? Os nossos imigrantes seriam escolhidos entre os mais bem preparados e mais aptos para as necessidades do nosso mercado de trabalho… Ou viriam apenas aqueles que mais ninguém quer, no resto da Europa? Se por todo o lado a imigração se está a tornar na principal dor de cabeça de políticos e partidos, como seria possível antever uma entrada significativa de estrangeiros aqui sem gerar tensões e atritos? Será Portugal assim tão especialmente vocacionado para o acolhimento e integração de estrangeiros?..."

Portugal, demograficamente falando, está a definhar há muitas décadas. Há 50 anos, aqui como em todo lado, generalizou-se a “pílula”, logo se passou ao aborto ilegal, depois aos referendos sobre a legalização, finalmente a “interrupção voluntária da gravidez” vinga em 2007, passa-se entretanto à “contraceção de emergência” ou “pílula do dia seguinte”. Atualmente, na prática, existe mais (ou menos…) utilização de anticoncetivos, incluindo mais e mais (às vezes menos) preservativos, verifica-se a utilização muito alargada da pílula (abortiva) do dia seguinte, e ainda se realizam de 15 ou 20 mil abortos legais por ano, a adicionar aos abortos clandestinos (fora dos parâmetros legais) realizados em solo nacional ou lá fora…

O resultado de toda esta guerra civil contra nós próprios e contra as futuras gerações é o que se sabe: a liquidação dos alicerces demográficos sobre os quais assenta o país, a sua economia, a nossa sociedade, população envelhecida, pirâmide etária invertida, população ativa a suportar um fardo cada vez mais pesado de reformados, desempregados, subsidiados, trabalhadores e empresas esmagados fiscalmente por um Estado que cada vez funciona pior nas suas áreas de competência, economia cronicamente endividada e jovens em fuga para outras paragens com melhores oportunidades, vastos territórios abandonados e desmazelados, intermitentemente pasto de fogos gigantescos…

A sociedade tem vindo a interiorizar o pessimismo e o mal-estar que resulta de se perceber que o futuro está completamente comprometido… mas ninguém, nos meios políticos, nos centros de informação e decisão, tem a coragem de atirar com propostas sérias e de fundo, relativamente à questão demográfica, para cima da mesa. As propostas dos nossos políticos para “inverter a queda da natalidade” ou “resolver o problema demográfico” são essencialmente um jogo de palavras sem nexo, para inglês ver, e ludibriar a incauta opinião pública enquanto esta não se apercebe da gravidade da situação em todas as suas ramificações. De entre as propostas dos 2 grandes partidos do sistema, temos a promessa do PSD de atribuição de um apoio “financeiro” de 10 mil euros por cada filho. Do lado do PS, em contrapartida, dado que está no poder, não se fala em dinheiro mas sim, vagamente, numa necessidade de aumentar o número de imigrantes, nomeadamente profissionais com boas qualificações e habilitações, de forma a colmatar o deficit de natalidade e de população ativa no país. Ou seja, o binómio de soluções que os 2 partidos do regime apresentam aos portugueses é, de um lado, dinheiro, aparentemente muito dinheiro, para os portugueses “fazerem” filhos e, do outro, usar a válvula da imigração, de preferência qualificada, escolhida a dedo, para dinamizarem a nossa economia e virem ajudar a pagar as nossas reformas e serviços públicos.

As ideias mais ou menos milagreiras de PSD e PS foram, pouco depois de enunciadas, desmontadas em poucos minutos por alguns jornalistas e analistas um pouco mais motivados para debater a questão nos diversos fóruns mediáticos. No caso do PSD perguntava-se, por exemplo, de onde viria o dinheiro, de que horizonte temporal se estaria a falar. 20 anos? Mas isso, então, não é mais do que um pequeno aumento do velhinho “abono de família”… E será que os casais jovens, perante o incentivo de 50 ou 70 € mensais, irão mesmo decidir ter mais filhos? No caso do PS, outras perplexidades. Imigração? É um pau de 2 bicos, uma ideia muito arriscada que tem gerado crescentes fobias um pouco por toda a Europa. Por que razão haveria de resultar em Portugal? Os nossos imigrantes seriam escolhidos entre os mais bem preparados e mais aptos para as necessidades do nosso mercado de trabalho… Ou viriam apenas aqueles que mais ninguém quer, no resto da Europa? Se por todo o lado a imigração se está a tornar na principal dor de cabeça de políticos e partidos, como seria possível antever uma entrada significativa de estrangeiros aqui sem gerar tensões e atritos? Será Portugal assim tão especialmente vocacionado para o acolhimento e integração de estrangeiros?

A conversa fiada sobre demografia e o ping-pong entre PSD e PS sobre natalidade, para já, voltou para segundo plano nos media, para evitar incómodos aos principais agentes políticos e poupar a opinião pública a uma questão demasiado estrutural e complexa. Mas o problema voltará de forma tão recorrente e inexorável como qualquer outro problema por resolver e cuja gravidade se vai intensificando de ano para ano. Tendo em conta que os alicerces demográficos do país estão cada vez mais frágeis, um dia dar-se-à o desmoronamento do edifício. O deficit de natalidade é, de facto, enorme e o passivo demográfico cresce todos os anos. Tal como um jogador compulsivo, no casino, que só para quando se arruinar ou arruinar a família, tal como uma empresa carregada de dívidas que só para no dia em que fornecedores e bancos decidem fechar a torneira do crédito, um dia destes teremos um choque violento com a realidade, seja pela via da economia, ou por vagas migratórias, ou por outro mecanismo qualquer. A travessia destes 50 anos tem sido repleta de erros, de excessos, de desrespeito pelas regras mais básicas, o navio tem sido conduzido de uma forma pouco disciplinada, está cheio de problemas técnicos e a “tripulação”, desde políticos míopes a especialistas e analistas sempre politicamente corretos, não vê, ou não quer ver, as rochas no caminho, o naufrágio é cada dia mais provável e só resta, para a maioria dos passageiros, buscar as balsas salva-vidas. Será cada um por si.

Editorial

Agosto 2018