E fogo 1

Opinião: Portugal tinha, há 100 anos, no início do século XX, metade da população que tem hoje, contudo o povoamento era então muito mais equilibrado entre litoral e interior, cidades e campo. O território estava povoado e era cultivado, utilizado, explorado. Portugal era pobre, sim, mas continua pobre. E endividado. E agora despovoado, fora das cidades. Mais concretamente, após o êxodo rural dos anos 60, as cidades encheram-se de gente e os campos esvaziaram-se de gente. Depois, o novo modelo de sociedade fez com que a natalidade caísse a pique e hoje os 10 milhões de população envelhecida nada têm a ver com o vigor dos 5 milhões de portugueses que há um século trabalhavam nos campos, nas pescas, nas fábricas, ou emigravam e iam construir outros “portugais” em África, no Brasil, noutras paragens. Hoje o país já não tem força anímica, nem força física, nem meios, para reocupar o seu território. Por outro lado perdeu a oportunidade, ao longo de décadas, de modernizar a estrutura fundiária, eliminando os prédios indivisos detidos por inúmeros herdeiros, e os minifúndios inviáveis que proliferam especialmente a norte. Nem um cadastro rústico geo-referenciado foi levado a cabo, ao fim de décadas de novas tecnologias, de décadas de Política Agrícola Comum e de fundos comunitários. Como tal nem investidores externos, nem internos, estão disponíveis para pegar no nosso território. Mais de 25% da floresta e mais de 10% do território nacional é eucalipto. Está entregue à árvore que Eça de Queirós já designava, há 130 anos, como o “ridículo eucalipto”.

É recorrente no discurso político dos governantes, aqui e ali, “a ver se pega”: na origem dos grandes incêndios estão as famosas alterações climáticas, como se antes em Portugal nunca tivesse havido calor, frio, tempestades, inundações. Caso a opinião pública “compre” a ideia, teríamos um importante fator de desresponsabilização politica pelo que se passa e uma forte atenuante para a falta de resultados das tão apregoadas políticas de prevenção de fogos florestais, políticas de reforma da floresta, reestruturação da proteção civil, postas em marcha ou reforçadas após os incêndios assassinos de 2017.

Em 2018 não se havia registado qualquer vaga de calor assinalável até final de julho, as temperaturas mantinham-se estranhamente abaixo da média e começava a despontar a tentação de cantar vitória em relação à prevenção e limpeza das florestas por parte dos políticos. Eis senão quando, logo aos primeiros dias de canícula de agosto, com temperaturas desta feita acima da média, as chamas irrompem a sul e um incêndio de grande dimensão destrói metade da área do concelho de Monchique no espaço de tempo de uma interminável semana. Claro, grande parte do fogo foi alimentado a eucalipto, em especial a partir de matas desmazeladas e desorganizadas desta espécie - como as que existem em grande parte do país. A partir do momento em que o fogo se torna um mega-incêndio tudo arde, olivais, medronheiros, pastos, campos cultivados, colmeias, animais, alfaias e armazéns agrícolas, casas e automóveis à porta, só parando às portas de centros urbanos – no caso vertente às portas de Monchique e de Silves. De notar que estavam a ser utilizados na frente de fogo centenas e centenas de operacionais (um terço do efetivo nacional?...), centenas de viaturas de bombeiros e proteção civil, 20 meios aéreos em permanência, de dia. Felizmente que não se registavam ocorrências semelhantes em outros pontos do território já que afluíram ao Algarve corporações de bombeiros de todo o país, deixando outras frentes desguarnecidas, caso se tivessem declarado outros incêndios…Os ocupantes das aldeias foram sendo evacuados sistematicamente, não tendo havido vítimas mortais a lamentar, desta vez. Mas o rasto de destruição em termos de bens e infraestruturas terá sido muito elevado. Não obstante, ainda o território fumegava e já se começavam a ouvir, de novo, tímidos cantos de vitória, assinalando que não só não tinha havido vítimas, como a proteção civil tinha funcionado com grande eficácia, e que este “caso isolado” era, no fundo, uma exceção que confirmava a regra. Tudo o resto, afinal, estava sob controle.

“Bem-vindos” ao 1º episódio da nova temporada de incêndios 2018. Balanço do 1º ato: 30 mil hectares ardidos, calcinados, destruídos em Monchique e Silves. Logo por azar a escassos quilómetros do ex-líbris do turismo nacional nesta época, o Algarve, cheio de veraneantes estrangeiros e nacionais. Para já, nada que se compare aos 5% de território nacional (500 mil hectares) que foram devorados pelas chamas em 2017, de Pedrógão Grande a Oliveira do Hospital, passando pelo Pinhal de Leiria… Nada que se compare aos 110 mortos do ano passado. Mas a procissão ainda vai no adro – quem dera que não - o perigo espreita e as condições da má gestão do território e do mau povoamento florestal estão aí, um pouco por todo o país.

A ladainha das alterações climáticas, a propaganda da reforma da floresta, as medidas viris relativas à proteção civil, escondem a imensa fragilidade do nosso país e do nosso território, vulnerável como nunca ao risco de incêndio, este ano, no próximo, mais tarde ou mais cedo. Somos o país europeu que mais arde, tivemos o maior fogo registado na Europa até ao momento, este ano. Não tão mortífero e catastrófico como o da região leste de Atenas em julho, que matou 100 pessoas. Mas 10 vezes maior que aquele que era muito noticiado em Espanha, na mesma altura que o nosso, o da região de Valência, que queimou 3 mil hectares.

Portugal tinha, há 100 anos, no início do século XX, metade da população que tem hoje, contudo o povoamento era então muito mais equilibrado entre litoral e interior, cidades e campo. O território estava povoado e era cultivado, utilizado, explorado. Portugal era pobre, sim, mas continua pobre. E endividado. E agora despovoado, fora das cidades. Mais concretamente, após o êxodo rural dos anos 60, as cidades encheram-se de gente e os campos esvaziaram-se de gente. Depois, o novo modelo de sociedade fez com que a natalidade caísse a pique e hoje os 10 milhões de população envelhecida nada têm a ver com o vigor dos 5 milhões de portugueses que há um século trabalhavam nos campos, nas pescas, nas fábricas, ou emigravam e iam construir outros “portugais” em África, no Brasil, noutras paragens. Hoje o país já não tem força anímica, nem força física, nem meios, para reocupar o seu território. Por outro lado perdeu a oportunidade, ao longo de décadas, de modernizar a estrutura fundiária, eliminando os prédios indivisos detidos por inúmeros herdeiros, e os minifúndios inviáveis que proliferam especialmente a norte. Nem um cadastro rústico geo-referenciado foi levado a cabo, ao fim de décadas de novas tecnologias, de décadas de Política Agrícola Comum e de fundos comunitários. Como tal nem investidores externos, nem internos, estão disponíveis para pegar no nosso território. Mais de 25% da floresta e mais de 10% do território nacional é eucalipto. Está entregue à árvore que Eça de Queirós já designava, há 130 anos, como o “feio e ridículo eucalipto”.

 Mais tarde ou mais cedo, porém, alguém irá ocupar e explorar o que, em tempos, foi o território que Portugal abandonou à sua sorte. Não, não foram as alterações climáticas que condenaram o nosso território, foi antes a alteração civilizacional e cultural que adotámos e importámos, sem critério, e que consistiu em deixarmos de renovar gerações, em deixarmos de procriar, em deixarmos de povoar, em deixar de constituir família e passarmos a destruir famílias, em deixarmos de ter crianças, em deixarmos de ter maternidades e clínicas para dar à luz e antes passarmos a usar maternidades e clínicas para abortar. O nosso território foi condenado porque voltámos as costas às nossas aldeias, tradições e religião, porque rejeitámos o mundo rural que sempre foi parte essencial da alma de Portugal. Não, não é o clima que está a destruir Portugal. Somos nós mesmos, a nossa revolução demográfica e a nossa destruição civilizacional.

JG

Agosto 2018