A Defend family

Isabel Vaz Antunes: "A luta contra a violência doméstica tem de ser muito clara: nenhuma circunstância justifica que uma pessoa use a força, o ascendente, o poder que tem sobre outra para a magoar, para a destruir, física e/ou emocionalmente. E temos de sublinhar a expressão “nenhuma circunstância”. Porque, se cedermos terreno, se introduzirmos exceções, já estamos em contradição, perdemos a razão e lá se vai a coerência, o exemplo. E todos sabemos que é impossível ensinar sem dar o exemplo.

Como é que podemos querer que a nossa sociedade assuma que não é legítimo maltratar quem quer que seja, se, em pleno século XXI, os serviços de saúde são obrigados a ter como prioritários na sua agenda os pedidos de aborto? Se nos colocarmos na pele de um adolescente cuja namorada engravidou e a quem a sociedade oferece o aborto, como prática literalmente legítima (porque permitida e facilitada por lei), talvez entendamos melhor... "

Violência doméstica

Quando falamos em violência doméstica, assim, na abstração, na generalidade, e face às notícias que nos chegam, estamos sempre todos de acordo: é uma chaga da nossa civilização que é preciso tratar. Aplaudimos e aderimos a sessões e iniciativas de sensibilização, com toda a convicção, com a atitude de quem cumpre uma obrigação, para sensibilizar a sociedade, sobretudo os adolescentes e jovens… O problema é que estamos sempre a cair em contradição nas mensagens que lhes enviamos. Se estas dinâmicas são mensagens diretas, intencionais e louváveis, elas teriam, porém, de estar em consonância com as outras, aquelas que lhes enviamos com o exemplo, o modo de vida e até a legislação. Enquanto isto não acontecer, não haverá resultados.

A luta contra a violência doméstica tem de ser muito clara: nenhuma circunstância justifica que uma pessoa use a força, o ascendente, o poder que tem sobre outra para a magoar, para a destruir, física e/ou emocionalmente. E temos de sublinhar a expressão “nenhuma circunstância”. Porque, se cedermos terreno, se introduzirmos exceções, já estamos em contradição, perdemos a razão e lá se vai a coerência, o exemplo. E todos sabemos que é impossível ensinar sem dar o exemplo.

Como é que podemos querer que a nossa sociedade assuma que não é legítimo maltratar quem quer que seja, se, em pleno século XXI, os serviços de saúde são obrigados a ter como prioritários na sua agenda os pedidos de aborto? Se nos colocarmos na pele de um adolescente cuja namorada engravidou e a quem a sociedade oferece o aborto, como prática literalmente legítima (porque permitida e facilitada por lei), talvez entendamos melhor. Eles sabem o que é um aborto: sabem que se destina a “interromper” uma “gravidez indesejada”, mas sabem também que por detrás do eufemismo está um ser humano na fase inicial, mais frágil e dependente da sua vida, e que vai ser despedaçado porque… surgiu na hora errada, no lugar errado… embora como consequência lógica e direta do ato dos seus pais. Aqueles dois, com a ajuda dos serviços de saúde, sabem que mataram um ser humano com o aval da lei, da sociedade. Claramente falando, foi isto que aconteceu. Mas a culpa não foi deles – e sabe-se lá a dor que os acompanhará. Muitos só conseguem ultrapassá-la passando a dar testemunho do engano que o aborto é, enquanto “solução” para um “problema” - porque nem é solução, uma vez que cria outro maior e irreversível, nem se tratou de resolver um problema, porque o que se fez foi matar um ser humano. É por isso que, para outros, não será mais do que uma licença para, no futuro, maltratar os seres humanos que se tornem “incómodos”. Não é isso que acontece também sempre que é feito um aborto por os exames terem revelado uma deficiência?

Em sentido inverso, estamos a “produzir” seres humanos para satisfação pessoal, sem respeito pelo seu direito a uma árvore genealógica, a uma ligação ao seu passado genético – é o que acontece com os bancos de esperma e de óvulos; estamos a destruir laços afetivos essenciais ao equilíbrio humano quando permitimos que haja “barrigas de aluguer”.

Isto, a par da ideia de que é “digno” oferecer a morte a velhos, doentes e portadores de deficiência, uma morte mascarada de bondade, acaba por completar um cenário explosivo. O lógico seria que nos uníssemos a construir condições para que todos se sentissem confortáveis, acarinhados, amados, independentemente das suas limitações, porque essas todos as temos. E todos ansiamos por esse conforto, o carinho e amor que afastam todos os medos. Mas não:

permanece ainda, para alguns, em cima da mesa, a defesa da dita “eutanásia”: se não estás bem, mata-te, a gente compreende; se quiseres, a gente até ajuda – coloca-se a lei e o serviço de saúde (que ironia!) a tratar do assunto.

Esta falta de coerência entre a teoria e a prática anula todas as ações de sensibilização que possamos levar por diante. O mais natural é que os adolescentes e jovens façam como veem os adultos fazerem: teoricamente, somos contra a violência; na prática, logo se vê o que dá mais jeito, o que as circunstâncias parecem convidar a fazer.

Assim não vamos lá.

Talvez seja mais cómodo virar a cara e fingir que nada disto faz sentido, que uma coisa não tem a ver com a outra e que é preciso é campanhas contra a violência doméstica. Diríamos, porém, que o que é preciso é dar o exemplo a favor do respeito pelo ser humano – todo o ser humano, em todas as circunstâncias. Dar o exemplo com a vida, com a palavra, com a lei, com a atitude de uma sociedade inteira.  

Isabel Vaz Antunes

Em 15/3/2019, em "O Carrilhão" - Periódico do Concelho de Mafra