Jornais

Viver a Vida

Por Raul de Almeida 

Os media e quem os controla, sob as suas mais diversas formas, perseguem uma estratégia de ridicularização das pessoas e dos movimentos pró-vida. A caricatura da senhora farisaica e do senhor intolerante, a colagem do crucifixo a afirmações medievas, o achincalhamento de quem não segue a cartilha da suposta modernidade, denunciam um clima de bullying de enorme proporções, visando estancar o crescimento do número de pessoas que se interroga e pensa pela própria cabeça.

No último fim de semana, nas grandes cidades caminhou-se pela Vida. O grande número de pessoas presente, a transversalidade social e etária, o ânimo dos presentes e a alegria contagiante que se viveu, atestam a profunda importância deste testemunho.

Num mundo em que os poderosos abrem um fogo contínuo e inclemente sobre aqueles que defendem a preservação dos valores fundacionais da nossa civilização, resistir exige coragem e, acima de tudo, profundidade de convicções. Cada manifestante, cada cidadão que se mobiliza, sabe desde cedo que tão grande é a importância do que defende quanto é grande a força impiedosa de quem se lhe opõe.

Os media e quem os controla, sob as suas mais diversas formas, perseguem uma estratégia de ridicularização das pessoas e dos movimentos pró-vida. A caricatura da senhora farisaica e do senhor intolerante, a colagem do crucifixo a afirmações medievas, o achincalhamento de quem não segue a cartilha da suposta modernidade, denunciam um clima de bullying de enorme proporções, visando estancar o crescimento do número de pessoas que se interroga e pensa pela própria cabeça. A compaixão de hoje é retratada no pai que compreende e encoraja a eutanásia do filho. A amizade de agora é reconhecida na amiga que facilita sem questões incómodas o aborto à advogada que não quer interromper a carreira de sucesso, acabando as duas num restaurante da moda ou a comprar um par de Jimmy Choo’s para ultrapassar o sucedido. O respeito dirige-se cada vez mais aos animais, ao meio ambiente, ao planeta, desviando-se da pessoa e da exigência que tal respeito acarreta.

Continuar a ler

O aborto e a eutanásia são os grandes instrumentos de desvalorização do individuo, são a absoluta relativização da sua humanidade, a peste que nos dizimará por acção directa e indirecta. Para além de cada acto, para além de cada vida humana que é negada, há a terrível chaga social que representa esta banalização da morte, a depreciação implícita do valor da vida de cada um de nós. Neste curso de acontecimentos obscuros, poderão a qualquer momento surgir novas causas que ampliem sem critério o cardápio de justificações que ponham em causa a vida que entretanto se tornou descartável.

A esta corrente opressiva que combate, ataca e ridiculariza quem é intransigente na defesa da vida, e a considera um bem maior, convirá recordar que os grandes monstros que a história recorda são precisamente os que se libertaram deste princípio de inviolabilidade da vida humana, do respeito do seu curso natural, da noção da sua transcedência.

A esta nublosa que se espalha todos os dias de modo insidioso, convirá opor a realidade das nossas vidas. O aborto não é uma passagem fugaz por uma clínica de luxo em Lisboa ou Nova Iorque, de onde se sai a tempo de uma peça de teatro com as amigas. O aborto é um procedimento clínico contra natura que deixa invariavelmente marcas na mulher que o faz. O aborto é objectivamente o acto que termina com uma vida humana que não teve direito a defesa, a expressão de vontade. O aborto é o mais aberrante acto de violência sobre a mulher, por muita perfídia que se invista a tentar vendê-lo como libertador.

Esta é claramente uma luta desigual. Não há grandes corporações, sociedades secretas com tentáculos nos centros de decisão e influência, organizações internacionais de peso, por trás das associações pró-vida. Ainda assim, resistindo com alegria, são muitas as vidas que salvam, os projectos de vida que ajudam a edificar, o amor que entregam gratuitamente, a dignidade que acordam em quem abraçam. É daqueles casos em que quem dá enriquece tanto ao dar quanto o seu semelhante ao receber. Vale por isso a pena travar este combate. Vale por isso a pena correr o risco de não seguir acriticamente o rebanho. Vale por isso a pena ter consciência que a repetição dos actos ou seu acolhimento legal não os torna naturais ou desejáveis. Valerá sempre a pena viver cada dia com sentido, com espirito crítico, com vontade de contribuir pelas diversas formas ao nosso alcance para um mundo mais justo, mais digno, mais acolhedor da Pessoa. É uma empreitada que se renova e recomeça a cada dia, que faz de nós quem realmente somos: únicos e irrepetíveis. Com o direito inalienável de viver a Vida e o dever irrenunciável de garantir o mesmo direito aos outros.

In: Jornal Económico