Diário de Notícias - 1 Nov 04
Rascunho da vida
Por João César das Neves

Ouvi recentemente dizer: «Agora, que estou no fim da vida...» De repente fui agredido pela violência inaudita desta expressão. Como é que alguém pode contemplar directamente o fim de si próprio? Ninguém, por mais que o diga, é capaz de compreender a sua extinção. Falamos disso, elaboramos reflexões, até rimos ou ansiamos por ela. Mas nada disso equivale a entender a ausência de si mesmo. Que tudo aquilo que sou, os meus sonhos, amores, dores e ânsias, desapareça sem deixar rasto é algo que nenhum de nós pode considerar com verdade. Vemos a todo o momento pessoas morrerem à nossa volta, partirem para sempre e deixarem-nos um horrível vazio. Sofremos com isso e meditamos sobre o sentido da morte. Mas o próprio fim, que eu mesmo desapareça, é algo de inconcebível, incompreensível, incomparável com tudo o resto. 

Nenhuma outra criatura que conheçamos tem de olhar directamente para a própria destruição. Vemos muitas coisas mudarem, terminarem, desaparecerem, mas todas são inconscientes desse destino. Se a nossa vida chega ao fim diante dos nossos olhos, somos os mais infelizes de todos os seres. Sofremos bastante com a precariedade das nossas obras, efemeridade das nossas construções, volatilidade dos nossos propósitos. Mas saber que nós mesmos partilhamos de igual precariedade é de outra natureza. Como pode uma pessoa, com a sua elevação intelectual e sublimidade de personalidade, ter a mesma sorte das coisas? As coisas são coisas. Até os outros são outros. Mas eu não posso pensar a ausência de mim. Como pode alguém dizer que chegou ao fim da vida? Há pior ainda. Não nos basta esta patética incongruência de saber que um dia não seremos, mas a isso se junta a cruel ironia de não sabermos quando. O idoso que me dizia ter chegado ao fim da vida pode durar muito mais que eu. Todos os dias, quando acordamos, tanto quanto sabemos, estamos no fim da vida. Na vida nada há mais certo que a morte. 

Mas então compreendi que esta frase, tão usada, é completamente falsa. A única certeza da vida é a vida. Desde que nascemos que a nossa existência nos aparece com toda a evidência inelutável da certeza. Falam-nos da morte, vemos a morte, mas o que sentimos, a única coisa que sentimos com segurança, é a vida. A vida que vivemos não é efémera ou precária, não é volátil nem patética, não é cruel nem irónica. A vida que eu vivo é positiva, crescente, irreprimível, florescente, mesmo quando outros se esforçam por a limitar ou destruir. A vida tem começo e tem expansão. A vida é tudo o que eu sou. Como pode uma coisa destas ter fim? 

Como pode uma coisa que não pode acabar passar pela morte? Só há uma maneira de conciliar tudo o que sabemos sobre a vida. A única forma de entender o que somos é que esta vida seja um rascunho, um esboço preparatório, um ensaio. Só assim ela pode, ao mesmo tempo, ser positiva e mortal, irreprimível e patética. No rascunho vemos já o esplendor da obra acabada. Mas o rascunho pode ser rasurado, o esboço pode ser melhorado, o ensaio pode ser corrigido. Por isso ele é, ao mesmo tempo, efémero e crescente, precário e florescente. No final, ele será abandonado, quando a obra definitiva for passada a limpo. 

Não faz sentido que a vida, o dom mais precioso do mundo, tenha fim. Mas, sendo tão precioso, é lógico que tenha ensaio. Cada dia, com alegria, estou mais perto do fim do rascunho da minha vida.