Diário de Notícias - 3 Out 04
Histórias de crianças para alertar adultos 
JOÃO PEDRO OLIVEIRA
 
Porque há em Portugal 16 500 casos identificados de crianças em risco, é hoje lançado em Lisboa Histórias Verdadeiras dos Meninos da Ajuda de Berço. Um pequeno livro feito de cinco relatos de vidas que passaram pelo colo de quem os escreve, com a chancela da Bertrand e que pretende gerar receitas para financiar a actividade de quem, há seis anos, se dedica a acolher e apoiar os filhos que outros pais não quiseram ou não souberam cuidar.

O lançamento realiza-se esta tarde junto à loja da Bertrand do Chiado, em Lisboa, e o valor das vendas, que decorrem já desde sexta-feira, reverte integralmente para a Ajuda de Berço. Contas feitas, esta primeira edição de três mil exemplares poderá render 15 mil euros à causa, mas Sara Anastácio, presidente da associação, espera que a aceitação do público permita conseguir mais tiragens. «Porque é importante que todos percebam que há crianças que não têm um dia-a-dia igual ao dos seus filhos».

Ana Monteiro, psicóloga da Ajuda de Berço que assina estes textos, «escritos há já alguns anos sem qualquer intenção de publicar», explica que as «histórias, de facto verdadeiras, foram redigidas «ainda sem o distanciamento» que estes seis anos de trabalho já permitem alcançar. As palavras «foram escolhidas a pensar em adultos», ainda que as ilustrações, assinadas por Andrea Benollet, «jovem talento que colabora com a Ajuda de Berço e teve a generosidade de oferecer o seu trabalho», possam deixar a suspeita de que se trata de um livro para crianças. Esse, explica Ana Monteiro, «é outro desafio bastante interessante», que poderá bem seguir-se a esta edição: «contar às crianças histórias de outras crianças que não tiveram a sua sorte». E porque não? «Acho que vai depender apenas da aceitação que este livro possa ter».

A associação Ajuda de Berço «vive exclusivamente de donativos e da boa vontade de quem lá trabalha, e todos os anos é necessário realizar algum tipo de campanha de angariação de fundos». Campanhas que, explica Sara Anastácio, «procuram sempre ter algo de formativo e de informativo». Dito de outro modo, «assegurar a continuidade do trabalho» e, ao mesmo tempo, lembrar que «estes não são argumentos de filmes que vemos de tempos a tempos», antes são «histórias reais, feitas de protagonistas reais que as vivem todos os dias».