Público - 13 Set 04
Em Vez do Amor, o Aborto 
Por POR MÁRIO PINTO

Depois de uma série muito popular, na televisão, que foi "o barco do amor", tivemos, ultimamente, também sobretudo na televisão, uma "serieta" contrária ao amor, "o barco do aborto". Na verdade, só quando o amor acaba começa o aborto. Se o amor é essencialmente dádiva do nosso coração, o aborto é exactamente o contrário, porque é recusa do dom mais elevado que imaginar se pode: o dom da vida, simbolizada pelo bater do coração do filho.

Mas o barco do aborto foi mais do que uma "serieta" televisiva. Foi a cena de uma provocação, na palavra do cardeal patriarca, mais exacta do que a do bem-pensantismo do bispo castrense. Pois que outra coisa pode ter sido senão humilhante esse episódio, para um país que é livre e democrático, e permite todas as posições e toda a discussão acerca do aborto entre cidadãos portugueses? País que já fez democraticamente uma lei legalizando o aborto em certas condições? E, depois disso, perante o projecto de alargar essa lei, fez um democrático referendo? Os partidos políticos tomaram posições públicas. O Presidente da República assumiu toda a sua responsabilidade institucional na preparação do referendo. O país discutiu. E os portugueses votaram livremente em sufrágio directo e universal. Tratar esta questão, assim referendada, nos termos em que o foi pela encenação do barco do aborto, é uma "macacada" (perdoe-se-me o plebeísmo). Poderá haver um novo referendo; mas, democraticamente, devemos mais respeito a nós próprios do que foi exibido neste lamentável e humilhante episódio, sobretudo pelos média que se estão demonstrando mais vulneráveis à competição pelas vendas.

Então vêm agora uns quaisquer estrangeiros (digo-o sem xenofobia, porque há distinções a fazer entre nacionais com direito a voto e estrangeiros sem direito a voto, e, além disso, porque foram uns quaisquer) e acham que, com a ajuda humilhada de alguns portugueses, precisamos da sua encenação "pindérica" (que outra coisa foi um "barqueco" com um hospital dentro de um contentor!), para nos impor a sua agenda de "agit-prop"?

Ainda por cima, isto tem por detrás grandes negócios. Desde logo das televisões, em competição pelo "share". Mas ainda de muitos outros ramos do negócio mundial em torno do sexo e dos pseudo-progressismos do sexo e da geração humana. A prova de que era sobretudo "show" televisivo e "agit-prop" é que, sem o barco e as reportagens televisivas, logo esmoreceu a agitação e voltamos a ser "donos" da nossa agenda política. Que ridículo!

2. A ciência e as técnicas estão fazendo progressos notáveis no conhecimento dos começos da vida intra-uterina e do desenvolvimento do embrião. Eu só queria deixar aqui uma interrogação, com toda a seriedade. Pergunto o seguinte. À imagem do que aconteceu no tabaco, em que as tabaqueiras foram obrigadas a indemnizações milionárias, pergunto: se dentro de algum tempo a ciência vier a fundamentar que o aborto deve ser considerado um crime porque cientificamente o embrião já tem vida que não pode deixar de se considerar igual à humana, e sendo que, além disso (como já muitos cientistas admitem), o aborto é causa de aumento do cancro e tem efeitos graves na saúde e na vida das mulheres, admitindo isto, as pessoas e instituições que agora defendem o aborto estão dispostas a assumir as respectivas responsabilidades jurídicas, penais e civis? Ou não?

Admitindo a hipótese que lhes ponho, respondam, se fazem favor. Pois a verdaade é que cuidadosamente omitem qualquer referência pelo embrião, e só falam na mulher!... Estão com boa fé? Ou estão cometendo dolo? Digam: acham que podem ser isentas de responsabilidades se vier a verificar-se que é errado o que propõem? No mínimo, deviam dizer publicamente: ao defendermos estas posições: não nos responsabilizamos por quaisquer consequências futuras...

3. Acerca da onda em que parece que muita gente embarca, uns para ganhar dinheiro, outros para ganhar notoriedade progressista, outros (admito-o) por convicção mais ou menos induzida, gostaria hoje de sugerir a todos os que estão de boa fé uma recapitulação de um pensamento que me parece muito oportuno, nestes nossos tempos em que é a televisão de massas que marca a nossa agenda.

Num livro escrito pelo bispo Paul Cordes, presidente do instituto Cor Unum, conhecida instituição da Santa Sé, que reli neste Verão, recorda-se a posição de Kierkegaard, um prestigiado filósofo moderno: "O homem tem de aprender a tornar-se outra vez indivíduo", em ordem a defender-se da "supradeterminação social" (expressão de Philip Lersh). Quer dizer: a pessoa tem de libertar-se da pressão da moda, da pressão da televisão e mediática, da pressão do pensamento politicamente correcto, para poder ser pessoa autónoma. Kirkegaard defendia a necessidade de um esforço de autonomização pessoal perante a pressão colectiva até para ter "acesso ao cristianismo", até para ser verdadeiramente cristão.

Com efeito, o que são as massas, o que é uma multidão? É um grande número de indivíduos. E o que é a opinião de uma multidão? É apenas uma multiplicidade de opiniões individuais. Mas se a opinião de uma multidão, ou a opinião mediatizada, tiver maior importância do que a opinião do conjunto dos indivíduos, então de que origem procede esse acréscimo de força de opinião? A quem deve atribuir-se? A verdade é que esse acréscimo não pertence a nenhuma pessoa, não tem origem em nenhuma vontade nem em nenhuma liberdade pessoal. Portanto, não tem legitimidade democrática. Nas eleições, só conta a soma dos votos individuais.

É esta, contudo, a força da inorgânica opinião pública, ou de massas, ou mediática, com que alguns procuram jogar, na vida política e na defesa das ideologias. Será esta, também, a tal força da "dinâmica de vitória" de que fala Manuel Alegre? Que ele supõe arrastar a opinião do centro?

Em qualquer caso, essa tal força colectiva de opinião, que pressiona a opinião de cada um, não é uma entidade inequívoca. Poderá ser tudo o que se quiser, mas, em minha opinião, não tem legitimação verdadeiramente democrática porque não procede de um jogo comunicacional verdadeiramente personalista, e de facto pressiona as pessoas. Creio, por isso, que é um perigo para a democracia personalista e humanista. Os "media" deviam ter isto em atenção. Já que se consideram guardiões das liberdades individuais. A democracia que perde de vista este princípio torna-se na demagogia. Já o diziam os filósofos gregos há 25 séculos.