Diário Digital - 24 Ago 04
Associações anti-aborto indignadas com «Barco do Aborto»
Lígia Pacheco

As associações anti-aborto portuguesas estão indignadas com a vinda de um navio holandês ao nosso país preparado para realizar a bordo interrupções voluntárias da gravidez. Um dos movimentos admite poder vir a manifestar-se no porto onde a embarcação atracar.

A associação Mais Vida Mais Família não rejeita a hipótese de poder realizar acções para dissuadir as mulheres de abortarem no «Barco do Aborto», que vai estar em Portugal entre 29 de Agosto e 12 de Setembro.

Teresa Adão da Fonseca, membro da associação, classifica a iniciativa da Women on Waves como uma «provocação» já que aquela organização «vai aproveitar-se das águas internacionais» para cometer a prática que apenas é autorizada em Portugal em caso de perigo de vida para a mãe ou para o bebé, em caso de malformação do feto ou, em casos excepcionais, quando a mãe engravida em resultado de violação sexual.

A organização Women on Waves refere, por seu lado, que irá visitar o país a convite de várias associações de mulheres portuguesas e explica que os seus serviços apenas se aplicarão a mulheres que não têm a menstruação há menos de 16 dias. Os serviços não serão prestados após esse período.

A associação Mais Vida Mais Família considera ainda que motivos políticos e económicos estão por detrás desta acção. Opinião semelhante tem o movimento Mulheres em Acção, que aponta o dedo às clínicas privadas.

«Parece-me mais uma acção de marketing protegida por lobbies e interesses económicos de clínicas privadas», diz Alexandra Teté, vice-presidente da associação Mulheres em Acção.

A responsável diz que a iniciativa «não merece qualquer tipo de resposta» por parte deste movimento, até porque não acredita que as mulheres portuguesas «estejam à espera numa praia para abortar» uma vez que «percebem que estão a ser tratadas como um produto de marketing» além da «dor que (a prática) provoca».

Alexandra Teté classifica ainda a iniciativa da Women on Waves de «revoltante» e diz que «este tipo de atitudes não ajudam ninguém». «Se queremos ajudar uma mulher que tem uma gravidez que não deseja devemos apoiá-la financeiramente e não através do aborto», diz a vice-presidente da Mulheres em Acção.

A Associação Portuguesa de Famílias Numerosas já fez saber também que não tem previstas quaisquer acções contra a chegada do navio holandês a águas portuguesas mas espera que «as autoridades portuguesas actuem contra esta actividade criminosa». «Lamentamos profundamente que recursos financeiros estejam a ser gastos nestas práticas quando há coisas muito mais importantes em que deve ser aplicado o dinheiro», diz Fernando Castro, membro da associação.

A Women on Waves já empreendeu operações semelhantes nas costas da Polónia e na Irlanda – países que têm leis restritivas em matéria de aborto.