Portugal Diário - 26 Mar 04
O aborto é violento para mãe e bebé 
Carlos Pereira da Silva
 
«Sou enfermeira para lutar pela vida e não o contrário» 

Paula Pereira, é enfermeira especialista em obstetrícia há 12 anos e é, assumidamente, objectora de consciência. Ou seja, em caso algum praticaria um aborto.
Em conversa com o PortugalDiário, Paula Pereira afirma que é a favor da vida, mas não é contra o aborto se praticado dentro do quadro legal em vigor. Com uma ressalva. Aceita, mas não o faz. «Não tenho coragem de o fazer, e além disso sou enfermeira para lutar pela vida e não o contrário».

Apesar disso, afirma: «Não me atrevo a criticar ou a julgar uma mulher que decide interromper uma gravidez. O que não aceito é que se decida por decidir». Até porque «há muitos métodos de contracepção e cada vez mais eficazes e por isso não se justifica que uma mulher se deixe engravidar sem querer».

Conta que já foi abordada várias vezes na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, local onde exerce a profissão, e fora dela, por mulheres que queriam interromper a gravidez. «Uma vez, uma mulher veio ter comigo na Maternidade e disse-me que uma amiga dela queria abortar. Quando lhe disse que não o faria, foi embora e durante uns dias não voltei a vê-la. Mais tarde, quando nos cruzámos novamente na Maternidade lá confessou que quem queria abortar era ela própria e que não havia amiga nenhuma».

Situações como esta são muito frequentes: «A mulher quando descobre que está grávida e quer interromper a gravidez, raramente conta que é ela própria que o quer fazer e recorre a uma amiga». Paula Pereira conta ainda que muitas mulheres recorrem a pílulas abortivas para interromperem a gravidez. O problema é que tomam os comprimidos «em doses industriais» e quando chegam à urgência da maternidade já estão em estado grave e com hemorragias significativas.

A uma mulher, nesta situação, nunca é negada a assistência, mesmo que o médico ou o enfermeiro sejam objectores de consciência. «O mal já está feito e a vida dos bebés não podemos salvar. Temos é que salvar a vida das mães que muitas vezes já chegam em muito mau estado às urgências», afirma. Acrescenta que em 12 anos de carreira nunca viu um médico ou enfermeiro, objectores de consciência, negarem os cuidados primários a uma mulher nesta situação.

«Os bebés ficam a morrer numa sala ao lado»

Quando uma mulher é informada que o bebé vai nascer com malformações incompatíveis com a vida, passa a, em situações contempladas pela lei, poder escolher tê-lo ou não. Nestes casos é encaminhada para uma consulta especial e passa a ter acompanhamento psicológico.

Nestes casos, segundo a enfermeira, o processo de interrupção de gravidez é violento e até traumático tanto para a mulher como para o bebé. O parto é provocado e o bebé nasce. Paula Pereira diz que, até às 12 semanas de gestação o bebé nasce morto. Mas após este tempo, acontecem casos em que sobrevive durante horas depois de nascer.

Nestes casos, depois de retirado de perto da mãe, é colocado numa sala à parte para morrer. Numa das vezes «num parto provocado prematuramente por malformações incompatíveis com a vida, um bebé com pouco mais de 20 semanas sobreviveu. Nestas situações chamamos sempre o médico pediatra de serviço, para que ele decida o que fazer. O médico pegou na criança e levou-a para os cuidados intensivos para o salvar». O bebé acabou mesmo por morrer algumas horas depois, porque ainda não estava preparado para resistir fora da placenta.

Estes são os procedimentos normais, mesmo quando a interrupção da gravidez é voluntária. Se o feto nasce vivo, o pediatra é chamado e é sua função fazer tudo para salvar a criança. Mesmo que não haja salvação possível.