Portugal Diário - 26 Mar 04
Ninguém quer fazer abortos 
Carlos Pereira da Silva

INVESTIGAÇÃO: Se o aborto fosse liberalizado, hospitais não poderiam fazê-lo. Por falta de condições - e porque os médicos recusam a prática, mesmo que fosse legal

Se o aborto fosse liberalizado em Portugal, os hospitais não teriam capacidade de resposta e as listas de espera disparavam, dizem os especialistas. Pior. A maioria dos médicos recusar-se-ia a fazer abortos.
As maternidades e os hospitais não teriam capacidade para dar resposta ao aumento de afluência a estes serviços. Jorge Branco, presidente do Conselho de Administração da Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, garante que, se tal vier a acontecer, a unidade não tem condições para receber mais mulheres. «Actualmente, o pessoal que temos está à conta para as necessidades. Além de que parte do edifício está fechado para obras e por isso não temos sequer blocos operatórios em número suficiente para isso», afirma ao PortugalDiário.

Para já é impossível prever o número de mulheres que poderiam afluir à maternidade para interromper a gravidez mas Jorge Branco acredita que seria um acréscimo significativo. Ao qual a maternidade nunca conseguiria, nas actuais condições, dar resposta. É que, para além das falhas na estrutura, acredita que os médicos e enfermeiros nunca aceitariam as novas funções. «Há objectores de consciência que nunca aceitariam uma situação destas, e estão no seu direito. Um médico vive para salvar vidas e não para acabar com elas».

Aborto: um «contraceptivo à borla»

A liberalização da interrupção voluntária da gravidez, segundo o médico, poderá levar muitas mulheres a deixarem de tomar a pílula do dia seguinte para irem directamente aos hospitais e maternidades. «A verdade é que para se tomar a pílula do dia seguinte é preciso pagar e nestas condições fazer um aborto seria de borla», refere.

Outro problema apontado por Jorge Branco é que, mais uma vez, seriam os médicos os «maus da fita», se se recusarem a interromper uma gravidez neste quadro. «Os médicos e enfermeiros é que contactam directamente com os utentes, não quem legisla. Quem legisla não tem noção da realidade nas maternidades e, mais uma vez, se o pessoal se recusar a interromper uma gravidez fica mal visto pelo doente».

Também o Hospital de Santa Maria, em Lisboa, seria incapaz de o conseguir. Luís Mendes Graça, director do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia, garante que tanto o Santa Maria, como a maioria dos hospitais em Portugal, não têm condições físicas nem humanas para responder a uma eventual liberalização do aborto. «Há 140 mil pessoas em lista de espera para fazer uma operação e para estes os blocos operatórios não chegam. Estão sobrelotados e se tivessem que ser ocupados com interrupções de gravidez, a coisa ficaria muito complicada», garante.

Hospitais S.A. podiam pressionar médicos

O médico do Santa Maria acrescenta que «ninguém pode obrigar os hospitais» a pactuar com uma situação destas, até porque acredita que a maior parte dos médicos se iria opor: «Auscultámos há pouco tempo o pessoal do serviço de ginecologia e obstetrícia para saber quem estava disposto a aceitar levar à prática uma liberalização da interrupção voluntária da gravidez e a grande maioria disse que não». No caso de uma lei destas ser aprovada, Mendes Graça defende que sejam criadas clínicas só para o efeito, à semelhança do que acontece em países como a Inglaterra, a França e a Holanda.

Questionado sobre o facto de os médicos e enfermeiros poderem vir a ser pressionados, pelas administrações dos hospitais, para porem em prática as interrupções voluntárias de gravidez, o director de Serviço do Santa Maria, afirma que, a haver pressões, seria provavelmente nos «hospitais S.A». É que as unidades-empresa, diz o médico, «para além da fatia do Orçamento de Estado, recebem também pelas cirurgias que praticam, o que significa que quanto mais intervenções cirúrgicas fizerem, mais recebem».

Uma opinião diferente tem o bastonário da Ordem dos Médicos. «A Ordem está disposta a compreender os médicos que se opõem, mas nunca aceitará que se faça um negócio do aborto».