Luís Oliveira- 8 Mar 04
Braga, 8 de Março de 2004

Caro Dr. José Manuel Fernandes

Sou um leitor habitual do jornal Público considerando-o o melhor diário nacional. Contudo, existem alguns aspectos que têm caracterizado as últimas edições do jornal com os quais não concordo e que me levaram à indignação. Assim, decidi escrever esta carta para lhe comunicar alguns desses aspectos e que estão relacionados com a forma como o jornal Público tem lidado com a discussão nacional em torno do aborto.

Como é do conhecimento geral, no passado dia 3 estiveram em discussão na Assembleia da República várias propostas para liberalizar a lei actual do aborto. Por esse motivo, surgiram duas petições nacionais sendo que uma delas – Mais Vida, Mais Família – recolheu cerca de 200 000 assinaturas. Trata-se de um conjunto amplo de cidadãos que defendem que não se deve liberalizar o aborto em Portugal mas que, pelo contrário, a resolução deste flagelo passa por actuar ao nível das causas apoiando as mulheres grávidas em dificuldades bem como promovendo a família em diferentes domínios. O primeiro motivo da minha indignação está aqui: como é que uma petição que recolhe mais 60% de assinaturas que uma outra que pretende o referendo, merece uma atenção incomparavelmente inferior por parte do jornal que dirige? Lembro-me, por exemplo, que foram publicadas várias notícias à medida que a outra petição ia juntando assinaturas ao passo que a Mais Vida, Mais Família só viu noticiada a sua recolha de assinaturas no final sendo-lhe dado um protagonismo muito inferior. Será que estes 200 000 cidadãos não representam a vontade de uma parte substancial do povo português?

O meu segundo motivo de indignação está relacionado com a caminhada silenciosa organizada pelo movimento Mais Vida, Mais Família no passado dia 3 de Março. Mesmo sendo de Braga, nesse dia tive o prazer de participar na referida caminhada que juntou várias centenas de pessoas desde a Basílica da Estrela até à Assembleia da República. Estando no local, posso assegurar que a caminhada foi pacífica e respeitadora no que diz respeito à opinião das pessoas sobre esta matéria. Fiquei perplexo quando, no dia seguinte, vejo a notícia do Público sobre esta caminhada. Da autoria da jornalista Maria José Oliveira, a notícia tinha por título "E se eu o matasse agora mesmo" dando amplo destaque à presença de um indivíduo defensor da despenalização do aborto e que acompanhou a caminhada apenas com fins provocatórios. No momento, considerei reprovável o facto de a maioria dos media no local estarem a dar um elevado destaque a alguém mal intencionado ignorando a concentração de centenas de pessoas. Sinceramente, não estava à espera que os jornalistas do seu jornal seguissem esta prática que começa a ser habitual nos media portugueses e que tende a valorizar aqueles que mais aparato fazem e não aqueles que, de uma forma educada e respeitadora, lutam pelos seus valores. Se o movimento Mais Vida, Mais Família tinha sido esquecido pelo Publico até então, é com muita pena que constato que, mais uma vez, quiseram dar voz apenas a uma das partes envolvidas na discussão do aborto.

Como leitor habitual do Público, não posso deixar de condenar este tipo de práticas e espero que, ao contrário dos restantes media portugueses, o seu jornal não entre numa onda sensacionalista que apenas dá voz aqueles que mais aparato fazem e que muitas vezes são os menos respeitadores da opinião dos outros. Nesta matéria como em todas as outras, espero que o Público paute a sua conduta pelo respeito dos vários movimentos de cidadãos existentes e não apenas de alguns em concreto.

Cumprimentos do leitor