Nuno Serras Pereira- 3 Mar 04

A Serena Violência Violentíssima dos “Tolerantes” e “Moderados”

 A mentalidade reinante tem sobre a questão do aborto algumas reacções peculiares. Assim, defender e promover este crime é um direito, denunciá-lo é uma intolerância; praticá-lo é expressão de uma decisão madura, mostrá-lo por palavras ou imagens é chocante - indignam-se com a descrição ou a denúncia e não com a realidade descrita ou revelada. Desde que o criminoso ou o incitador ao delito apareça com ar simpático, voz suave e quente, testa franzida em jeito de quem compreende toda a gente será considerado civilizado, democrático, elevado; se alguém, em defesa da criança que vai ser morta, indignado levanta a voz, dá um murro na mesa e grita basta!, será tido por bárbaro, agressivo, extremista. Esquartejar e decapitar uma criança nascitura é uma opinião defensável, um acto protegido pela “lei”, executado por médicos, apoiado pelo Estado, pago com os nossos impostos; mostrar imagens dessa criança espotejada é chocante, infame, terrorista. Dizer na TV que melhor fora que as crianças da casa Pia fossem abortadas é louvável, um direito à liberdade de expressão, uma análise realista e sagaz; proclamar que isso é medonho, que legalizar o aborto é uma tirania, que aqueles que o propõem e incentivam são perigosos, é inaceitável, radical, totalitário. 

Há aí um Homem, até há pouco desconhecido, incansável e heróico na sua generosidade e constância que realmente, e não alegadamente, como nos quiseram fazer crer, tem, literalmente, salvo uma multidão de bebés de serem mortos e o correspondente número de mães de abortarem seus filhos. O trabalho hercúleo deste bom samaritano que, mesmo em perigo de vida, não desiste de atender quem lhe pede socorro nunca mereceu a mínima atenção da comunicação social, o cuidado dos políticos, o aplauso geral. Bastou, porém, que tivesse elaborado e distribuído um “panfleto” para que os media acorressem pressurosos, numa avidez de pelourinho, e orquestrassem uma condenação pública dando larga voz a quem com ar tranquilo de benzodiazepina e voz melada o cobriu de impropérios denominando-o fundamentalista, ignóbil, infame, terrorista, e sei lá que mais.  

O enorme “crime” deste sacerdote, Jerónimo Gomes de sua graça, foi o de ter dado a conhecer por imagens e palavras os tempos em que o coração do concebido ainda não nascido começa a bater, quando surge o cérebro, ter colocado palavras que denunciam a violência do aborto provocado, os interesses que se escondem por detrás das campanhas a seu favor - tudo isto totalmente inaceitável, na opinião “tolerante” e “moderada” dos abortistas.  No entanto, o que mais indignou os abortófilos foi uma fotografia de um oriental com um suposto feto humano no prato, preparando-se para comê-lo (não teve, segundo o próprio autor testemunhou qualquer responsabilidade na distribuição do folheto a crianças).  

Eu que conheço a fotografia há anos, veio-me parar ao e-mail, sempre desconfiei da sua autenticidade e procurei não lhe dar seguimento. O bom do P.e Jerónimo deu-a como verdadeira e num assomo de revolta logo se apressou, como quem não quer que tais monstruosidades se propaguem, em dá-la a conhecer, porventura, receoso de que pelos caminhos que agora trilhamos ainda acabássemos por ir lá parar. Terá sido ingénuo? Tudo parece indicá-lo. E agora ao saber que a foto é forjada não voltará a fazer uso dela. Aprenderá também a ser mais cauteloso e a aconselhar-se com quem o possa ajudar. Mas não há na sua atitude ponta de má-fé ou de má vontade.  

Porventura para escândalo de muitos, atrevo-me a dizer que não entendo tamanha indignação. Quem não se recorda daquela famosa investigação de dois jornalistas ingleses - publicada em livro com o título: “Bebés para Queimar” - que desvendaram os negócios chorudos de cosméticos em redor da indústria abortista? A cara de muitos andará besuntada de cadáveres de crianças chacinadas. Isto não indigna nem é chocante, a fotografia sim... 

Ninguém ignorará que “respeitáveis” Laboratórios Farmacêuticos têm no mercado internacional vacinas com elementos de fetos propositadamente abortados. Que estas crianças impedidas de nascer sejam ingeridas pela boca, como na suposta fotografia, ou injectadas na nádega por uma enfermeira de bata branca não parece constituir diferença essencial. Isto, porém, segundo os abortófilos, que civilizadamente nunca perdem a compostura, não é ignóbil nem terrorismo, é progresso, é ciência, é humanismo. 

A morte de uma multidão imensa de seres humanos na sua fase embrionária através de investigações e experiências, “canibalizando-os”, em nome da suposta cura de determinadas doenças, também não os impressiona, antes os excita e entusiasma. 

Marcelo Rebelo de Sousa disse ontem no sem comentário televisivo semanal que o debate sobre o aborto tinha corrido com elevação e moderação na Assembleia da Republica. Não Professor, não é verdade. Não há elevação alguma em quem propõe e se bate pela descriminalização ou a legalização do homicídio/aborto, há sim uma baixeza abjecta.