Lusa - 5 Mar 04
Aborto
Federação pró-vida critica campanhas com "imagens chocantes"

Lisboa, 05 Mar (Lusa) - A Federação Portuguesa pela Vida, que agrega várias associações contra a despenalização do aborto, criticou hoje a utilização de "imagens chocantes" em campanhas, como a que está a ser usada pelo movimento S.O.S. Vida.

Num folheto que está a ser distribuído em várias escolas públicas e privadas, ao qual a agência Lusa teve acesso, intitulado "Amor Precisa-se", divulga-se uma mensagem contra a "«pena de morte dos bebés» e o trauma e castigo das mães", apresentando-se uma imagem de um alegado feto num prato que um homem oriental não identificado, de talheres na mão, se prepara para comer.

A imagem ilustra uma parte do texto em que se refere que "no hospital de Taywan até se compram bebés mortos a 50-70 dólares, para churrasco!!!".

O movimento é uma associação de apoio à grávida que surgiu em 1999, por iniciativa do bispo Algarve, D. Manuel Madureira Dias, e tem como principal dinamizador o padre Jerónimo Gomes.

José Areia de Carvalho, presidente da Federação Portuguesa pela Vida (FPV), manifestou à Agência Lusa ter conhecimento do folheto em causa, mas rejeitou qualquer intervenção da organização que dirige na iniciativa do movimento S.O.S. Vida, que não integra a Federação.

"Cada uma das associações [contra a despenalização do aborto], mesmo as que estão na Federação, são livres de tomarem as iniciativas que entenderem", afirmou José Areia de Carvalho, que esclareceu também que o S.O.S. Vida "é um movimento cívico, que não está juridicamente constituído".

Questionado pela Lusa sobre a utilização de mensagens como a que surge no folheto, José Areia de Carvalho enfatizou que, apesar do "apreço e respeito pelo padre Gomes e a sua obra notável no apoio às grávidas, tem de se fugir de todo o tipo de campanha com imagens chocantes".

"A Federação Portuguesa pela Vida nunca participará em qualquer campanha com imagens chocantes, nem me parece correcto [a sua utilização] como conceito de distribuição de massas", frisou.

"A intenção [do S.O.S. Vida] será talvez fazer um tipo de grito, mostrando quão brutal é o aborto e até que ponto pode chegar a estupidez humana, mas essa mensagem deve ser feita com respeito pelas pessoas mais sensíveis", defendeu.

José Areia de Carvalho chamou ainda a atenção para a necessidade de, na questão do aborto, "passar da fase da discussão para a da construção", realçando que "uma cultura de vida constrói-se não através de imagens chocantes, mas de uma atitude de respeito pela vida".

Contactado pela Lusa, o departamento de família do Patriarcado de Lisboa afirmou desconhecer o folheto em causa e frisou que não teve qualquer participação na sua distribuição, nem ligação ao movimento S.O.S. Vida.

Isabel Pedro, do departamento de família do Patriarcado, adiantou ainda que a única iniciativa que tem sido desenvolvida, a propósito da discussão sobre a despenalização do aborto, é a distribuição de vídeos sobre a vida intra-uterina.

A despenalização do aborto foi discutida quarta-feira na Assembleia da República, tendo o debate terminado sem qualquer alteração à actual lei, como previsto, com a maioria a rejeitar todos os projectos de despenalização apresentados pela oposição, bem como as propostas para um novo referendo.

A justificação para a posição da maioria governamental PSD/CDS- PP foi a de que o prazo de validade do referendo de 1998, em que os portugueses disseram "não" à despenalização, deve ser no mínimo de oito anos, ou seja, até 2006.

Apesar dos votos contra de toda a oposição, o único projecto aprovado num debate "encaixado" num agendamento potestativo do PCP (direito de escolha da ordem do dia) acabou por ser uma proposta de resolução do PSD e CDS-PP que recomenda ao Governo medidas de combate às causas do aborto.

Este debate parlamentar foi o quinto sobre o aborto desde o 25 de Abril de 1974.

HM/SMM

Fonte: Agência LUSA