Nuno Serras Pereira - 4 Mar 04
O Abortuário
 
Ontem (03. 03. 2004) o Parlamento perdeu a dignidade e transformou-se num bando de malfeitores, ratificando o crime legal. Todos os partidos e a quase totalidade dos deputados votaram favoravelmente a promoção do aborto.
 
No circo romano os gladiadores adestrados e armados combatiam entre si com o propósito de salvar a própria vida, suspensa que estava de uma decisão arbitrária do imperador ou da plebe. Por isso o lutador esforçava-se por triunfar sobre o adversário. Todos nos recordamos do horror que nos acometia quando, ao vermos filmes sobre a época, o imperador ou a multidão erguiam o punho com o polegar na horizontal antes de se decidirem se o levantavam ao céu, poupando a vida, ou se o apontavam aos abismos infernais, condenando à morte.
 
Ontem no Parlamento os gladiadores, os diversos partidos, digladiavam-se, não para sobreviverem a uma possível morte, mas sobre o modo de a impor, através da legislação, a bebés inocentes e indefesos, no seio de suas mães. Contrariamente aos da antiguidade, os gladiadores parlamentares, cada deputado, têm o poder arbitrário de votar a vida ou a morte.
 
Alguns pensam que no Parlamento nunca se virá a realizar qualquer tipo de abortamento, pois isso ofenderia, ao menos por agora, a sensibilidade visual dos senhores deputados que também têm dificuldade em assistir à extracção de um dente. Outros pensam que dias virão em que para gáudio e regozijo dos mesmos nos dias mais solenes se exigirá que na abertura da sessão se provoque pelo menos um abortamento, também filmado por ecrã gigante para que não se perca nenhum pormenor, em homenagem aos “direitos” da mulher e à “misericórdia” assim institucionalizada.
 
Seja como for, o simples facto de ali se organizar legalmente a morte bárbara e cruel dos concebidos ainda não nascidos, já nos permite concluir, sem margem para dúvidas, que aquela instituição se transformou num abortuário (parece que esta palavra não existe em português, mas, de momento, não sei a que outra recorrer para ilustrar o meu pensamento.
 
Gente amiga recomenda-me que não escreva estas coisas, pois posso vir a ser processado e lançado numa enxovia. Porém, não posso calar a verdade por medo das consequências que me podem advir do seu anúncio. De resto, sentir-me-ia sumamente honrado em partilhar a sorte agrilhoada de S. Paulo. E depois, sempre poderia bradar, com um sorriso irónico nos lábios: Querem mandar os padres para a prisão!