Diário de Notícias - 10 Fev 04
Aborto
Francisco Sarsfield Cabral
 
Repita-se uma vez mais: o problema do aborto não é religioso, é moral. A crença religiosa pesa, por exemplo, em questões como o suicídio. Quem acredita que a sua vida é um dom de Deus não se sente autorizado a pôr termo a algo que lhe não pertence, nem a ajudar outros a fazê-lo. Fora desta perspectiva religiosa, o suicídio é aprovado por éticas de grande dignidade, como a estóica. 

No aborto, o caso é outro. Se está aí em jogo uma outra vida, a da criança que ainda não nasceu, então é obrigação moral respeitá-la e dever jurídico protegê-la, como a qualquer vida humana. Ou não se tratará de uma vida humana? Essa é, claro, a controvérsia. Decerto que, vivendo na barriga da mãe, a criança que vai nascer não possui autonomia. Mas um bebé já nascido, com semanas ou meses, também não a possui. A questão desloca-se, então, para saber a partir de que momento o feto merece ser protegido como vida humana. Com todo o respeito pelos que pensam de maneira diferente, é artificial e mesmo arbitrário marcar x ou y semanas para esse ponto a partir do qual passaria a haver pessoa. Só há uma resposta lógica: desde o princípio, desde a concepção. 

Dantes, quando apenas no momento do parto se sabia se nascia menino ou menina, a vida intra-uterina era ignorada. Hoje, com as ecografias feitas logo no início da gravidez e com todos os meios disponíveis para seguir o desenvolvimento do feto, existe uma nova consciência quanto ao ser que ali cresce. Muitos jovens pais e mães valorizam essas imagens: para eles, são «fotografias» de filhos seus. E já se fazem operações a fetos na barriga das mães. Parece cada vez mais inverosímil considerar «aquilo» apenas um monte de células - como lhe chamaram num debate na RTP.