Pedro Vassalo - 19 Jan 04
Faz Pena

Faz pena assistir ao debate sobre o aborto.
 
Faz pena que o Partido Socialista não mantenha o que prometeu que a matéria só fosse resolvida através de um referendo.
 
Faz pena que o PS não perceba que, mais uma vez, anda a reboque do Bloco de Esquerda.
 
Faz pena que alguns no PSD ainda tenham dúvidas sobre a promessa feita em campanha eleitoral.
 
Faz pena que o PCP qualifique todos os que, pela simples razão de se manterem firmes nas suas convicções, são arrogantes e hipócritas.
 
Faz pena que não se lembrem que também eles, os comunistas, por pensarem o que pensam já foram no passado acusados das coisas mais inconcebíveis.
 
Faz pena que os que defendem a discriminação até às 10, ou 12 semanas não digam que a partir das 10 semanas e um dia, ou das 12 semanas e um dia a mãe que pratica o aborto é afinal, para eles, uma criminosa.
 
Faz pena que não tenham a honestidade de dizer quem perde horas de sono, oferece fins de semana, recebe crianças em casa e apoia de facto famílias em necessidade, são os mesmos que não apoiam a legalização do aborto.
 
Faz pena que tragam Deus à conversa, quando afinal se trata apenas de saber se um feto é ou não vida humana.
 
Faz pena que o argumento utilizado é apenas que “em toda a Europa” o aborto já é permitido, como se tudo o que viesse da Europa fosse um dogma a ser aceite sem reservas.
 
Faz pena que quem quer a legalização do aborto não aceite discutir, ou afirmar sem tibiezas quando afinal começa a vida, porque a questão não é somenos importância.
 
Faz pena que não percebam que afinal é preciso um critério legal  para definir o início da vida.
 
Faz pena que não reconheçam que se afinal “aquilo” é vida, então não pode ser eliminada.
 
Faz pena que não percebam que uma coisa é condenar o acto, outra é condenar quem o pratica porque, por vezes, não há  outra solução.
 
Faz pena que não ouçam quem defende para as mães que abortaram não a prisão, mas a formação e o apoio efectivo.
 
Faz pena que não entendam que ninguém pode impedir um outro de nascer.
 
Faz pena ouvir que se ninguém pode obrigar ninguém a ter um filho, o que é verdade, já se aceita que a mãe obrigue o filho a não nascer.
 
Faz pena que o único consolo que têm para oferecer a uma mãe em dificuldades é que pode “desembaraçar-se do filho” de forma higiénica e barata.
 
Faz pena que não digam que afinal é bom viver, independentemente da vontade dos progenitores.
 
Faz pena o descrédito do deputados na felicidade de alguém que teve o azar de não ser desejado.
 
Faz pena que não conheçam mais crianças adoptadas, porque perceberiam que o destino de alguém não desejado não tem que ser, forçosamente, o caixote de lixo.
 
Faz pena verificar que quem é geneticamente mal formado não é aceite na sociedade.
 
Faz pena que os deputados deste país não exijam maiores apoios às mães em dificuldades.
 
Faz pena constatar que os deputados da esquerda apoiam o mais forte contra o mais fraco.
 
Faz pena que não exijam mais educação/ formação.
 
Faz pena pensar que se o resultado do referendo tivesse sido outro, ninguém estaria a pedir a sua repetição. E os hipócritas somo nós!