Margarida Neto 

 

Queridos Amigos,

Há cerca de 10 anos, na noite do ultimo referendo ao aborto, eu estava na televisão, naquela dificuldade de comentar o que os números diziam.  Tínhamos perdido o referendo.

Perguntaram-me – (Foi o José Rodrigues dos Santos…)

E agora? O que vai fazer?

E eu respondi… com a voz embargada… mas a alma inteira. Que iria para casa e diria aos meus filhos que defender a vida era uma causa para a vida inteira. Tínhamos perdido o referendo mas tínhamos ganho mais convicção.

Assim foi e assim é. Não nos cansámos e não desitimos. Aqui estamos!

DISCURSO NA CAMINHADA PELA VIDA 2017

MÉDICA MARGARIDA NETO

Queridos Amigos,

Há cerca de 10 anos, na noite do ultimo referendo ao aborto, eu estava na televisão, naquela dificuldade de comentar o que os números diziam.  Tínhamos perdido o referendo.

Perguntaram-me – (Foi o José Rodrigues dos Santos…)

E agora? O que vai fazer?

E eu respondi… com a voz embargada… mas a alma inteira. Que iria para casa e diria aos meus filhos que defender a vida era uma causa para a vida inteira. Tínhamos perdido o referendo mas tínhamos ganho mais convicção.

Assim foi e assim é. Não nos cansámos e não desitimos. Aqui estamos!

Desde 1998 que fazemos Caminhadas pela Vida. Vêm os filhos, os amigos, os filhos dos amigos.. os netos.. os que querem perceber.. os que não se conformam… os que acreditam que a Vida humana é o bem mais precioso. E por isso tem de ser defendida e protegida. Sempre!

Tudo isto começou em 1984 com a aprovação da primeira lei do aborto. Estava a finalizar o meu curso de medicina e lembro-me da manifestação que aqui aconteceu, neste mesmo local. Era um mar de gente… (não consegui entrar…)

Temos percebido que a causa da vida é sempre a mesma, mas que se vai desenrolando de muitas formas, de muitas maneiras, às vezes muito enganadoras…

Por isso temos estado juntos na questão do aborto, nas alterações à lei do aborto,  na procriação médicamente assistida, nas barrigas de aluguer, nas políticas de família, na liberdade de educação, na ideologia de género, na Eutanásia.

 Juntos também no trabalho de terreno, no acolhimento às grávidas em dificuldades, nos pontos de apoio à vida.  É um trabalho difícil de que nos devemos orgulhar, porque temos a experiência de que é possível fazer diferente.

Obrigada aos muitos jovens que aqui estão. É importante que saibam esta história.  Vocês são o presente e o futuro, vocês são  a nossa esperança!

A AR quer aprovar uma lei que legalize a Eutanásia.

É uma lei que vai contra a cultura humanista do povo português, e contra a Constituição, que afirma que o direito à vida é inviolável. Mas também contra a Declaração Universal dos Direitos do Homem e contra todos os Códigos de Ética médica. Incluindo a revisão actualizada do Juramente de Hipócrates na Assembleia Médica Mundial – Declaração de Genebra de Outubro de 2017.

“Guardarei máximo respeito pela Vida Humana” entre outros princípios da profissão médica, de sempre.

Todos os Bastonários da Ordem dos Médicos (incluindo o actual Bastonário)  afirmam a sua  firme oposição a uma eventual legalização da Eutanásia. Relembram  que em nenhuma

circunstância e sob nenhum pretexto, é legítimo a sociedade procurar induzir os médicos a violar o seu código deontológico.

Os princípios da Medicina excluem a prática da Eutanásia, da distanásia e do suicídio assistido. Mal vão aqueles que pretendem instrumentalizar a medicina com objectivos que são contrários à sua actividade, à sua prática, à sua Ética.

É função do médico minorar o sofrimento do doente. Fá-lo com a sua competência técnica e com a sua humanidade, com presença solícita junto de quem sofre.

Não é possível ser médico sem passar pelo confronto com o sofrimento e com a morte. Isso é muito duro e difícil na vida de um médico. Faz parte da sua vida. Aprendemos que não somos donos da vida dos nossos doentes, como não somos donos da sua morte.

É possível aliviar a dor física intensa e a angústia. Os medicamentos hoje disponíveis tornam possível o bem estar, sem dor. Os cuidados médicos têm essa preocupação, a organização de cuidados paliativos tem de ser crescente. São direitos da medicina,  dos doentes e  suas famílias, de nós todos.

Não havia sobressalto na sociedade portuguesa sobre este tema. Porquê o seu aparecimento agora? Poucos países no mundo aprovaram a Eutanásia ou o Suicídio Assistido.

Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Suiça, Canadá e 4 estados (em 46) nos EUA. Em Inglaterra e França foi rejeitada.

Porquê em Portugal? Porquê connosco? Porque deixamos passar? Porque estamos distraídos em relação a valores e princípios da nossa cultura? Porque nos deixamos enganar? Porque nos deixamos transformar?

Falam-nos de autodeterminação e liberdade. Conceitos fundamentais com que nos determinamos e vivemos. Mas eles já estão incluidos na prática médica, através do respeito na relação médico doente, do consentimento informado e no testamento vital. Relembro que o médico não pode impor tratamentos nem manter terapias obstinadas ou desproporcionadas. Direitos como autodeterminação e liberdade, não se transformam em direito a ser morto… que é isso que a Eutanásia é!

Falam-nos de sofrimento intolerável e de compaixão. Quase pretendem afirmar que somos insensíveis, que queremos que as pessoas sofram! Nós não somos insensíveis ao sofrimento, antes pelo contrário.  E a compaixão é algo que conhecemos bem !São conceitos com que todos concordamos,  que pretendem trazer a emoção para o debate  e com os quais se pretende manipular a opinião pública. Jamais poderão justificar a eutanásia ou a morte a pedido.

Seria a morte da própria medicina, da própria compaixão ou do acto de cuidar.

Seria a morte da própria sociedade. Porque quando começamos  a permitir que alguns de nós… em vez de serem protegidos e cuidados…. sejam mortos…. Então é a própria sociedade que vai morrendo….que se mata a si mesmo.. que é isto que a cultura de morte nos faz…

Querem redefinir princíos relativos ao respeito pela vida humana. Querem redefinir critérios de dignidade humana.

Têm a ousadia e a infâmia de afirmar que há vidas que não são dignas.

Precisamos de reafirmar com convicção, coragem e fortaleza que toda a vida merece acolhimento, respeito e proteção. Que toda a vida tem dignidade, desde o seu início até ao seu fim.

Que nenhuma circunstância a tornará menos digna. Muito menos a doença, o sofrimento, a incapacidade, a dependência, a solidão. Os médicos estão na primeira linha da defesa da vida. Junto dos seus doentes e junto das famílias. Sabemos a importância da confiança na relação médico-doente e no sistema de saúde. A possibilidade da Eutanásia mata esta confiança. E nunca mais nada voltará a ser igual… quando um idoso ou alguém cansado de viver entra num hospital…

Porque é disso que se trata.

A motivação primária para a Eutanásia não é a dor física ou um estado terminal.

Sabemos pelos países que legalizaram a Eutanásia – (os números estãos nos relatórios) .São as situações existenciais  como o receio de ser um fardo, de perder a autonomia, perda do sentido de dignidade, o cansaço da vida, o isolamento, a doença mental e a idade.

Na Holanda, fazem-se 5 mil eutanásias por ano. Apesar da lei e das comissões reguladoras. Todos os anos tem aumentado.  Sabemos que há eutanásias não pedidas pelo próprio, e até do desconhecimento da família. Sabemos que doenças como a depressão e a demência podem justificar a eutanásia. Na Bélgica há crianças a ser eutanasiadas.

Isto não é um papão, como nos dizem. É a realidade e  chama-se   rampa deslizante. Há bastantes relatórios e artigos científicos que o comprovam. Os nossos opositores, como não podem desmentir o horror dos números dizem-nos que em Portugal não será assim.

Não nos deixemos enganar. Foi assim que o povo português se iludiu na questão do aborto.

Termino referindo que os deputados não têm legitimidade politica ou moral para aprovarem uma lei que destrói princípios fundamentais da cultura portuguesa e da medicina.

Que esta caminhada continue e chegue mais longe. Ao coração e à razão dos portugueses.

Aqui estaremos sempre para defender a vida. Precisamos de deputados que a defendam também.

Eutanásia Não!