A Down

O mais controverso diretor de teatro da sua geração, nas palavras do semanário alemão Der Freitag, Milo Rau, nascido na Suiça, é autor de peças como “Os 120 dias de Sodoma”, que leva agora à cena, “O tribunal do Congo” ou “Os últimos dias dos Ceausescus”. “O espetáculo-choque” de Milo Rau, como refere o Jornal Público, na edição de 1 de março do seu suplemento cultural Ípsilon, chega agora a Portugal, com atuação no Porto a 7 e 8 de março. Trata-se de uma peça de teatro especial em que grande parte do elenco são jovens atores com síndrome de Down. Como refere o Ípsilon será, talvez, tristemente, o último grupo de atores com Trissomia XXI, perante o “extermínio fascista” – tal como mencionado no Ípsilon - dos portadores desta síndrome a que assistimos.

http://www.teatromunicipaldoporto.pt/PT/programa/milo-rau-os-120-dias-de-sodoma-suica-estreia-nacional/

Milo Rau

Os 120 dias de Sodoma

O teatro de Milo Rau, considerado o mais controverso encenador da atualidade, volta ao nosso palco para um trabalho que desenvolve as pesquisas em torno do voyeurismo e as suas implicações políticas e artísticas.

Em 2017 o Teatro Municipal do Porto apresentou “Five Easy Pieces”, uma peça de Milo Rau protagonizada por um elenco de crianças que retratava os crimes que o pedófilo Marc Dutroux cometeu nos anos 90. Agora, através de um trabalho colaborativo com a aclamada Theater Hora, companhia composta por atores portadores de Trissomia 21, a mais recente produção de Milo Rau atira-nos para diante dos olhos um teatro que obriga a pensar em questões fundamentais: qual é o significado do poder? O que é voyeurismo? Como proteger a dignidade da vida? O que é o normal, o que é o anormal? Onde termina a dor e começa a salvação? “Os 120 Dias de Sodoma” apropria-se do título do último filme de Pasolini, por sua vez inspirado no romance de Marquês de Sade, e convoca a sua estética para o teatro. Da literatura do final do século XVIII, às perturbadoras imagens que marcaram a história do cinema nos anos setenta – uma série de rituais sádicos praticados sobre um grupo de jovens em período do regime totalitário em decadência –, Milo Rau atualiza as relações de poder, sexo e violência que moldam os tempos e apresenta-as em carne e osso. O encenador e também sociólogo prolonga assim uma investigação sobre um certo tipo de regra que substituiu o sistema fascista, mas mantem os seus mecanismos de repressão, através da normalização do excesso, a constante otimização do homem, o perverso desejo de escândalo e a constituição de uma sociedade que oscila entre o hedonismo e a desgraça. Ainda que imediata e mediaticamente antecedidos por uma nuvem de polémica, os espetáculos de Milo Rau podem mesmo ser impróprios para os mais suscetíveis na medida em que testam o que é representável e suportável, mas, acima de tudo, ensinam-nos que há no seu trabalho mais ternura que pudor. 


Milo Rau nasceu em 1977, na Suíça. É encenador, realizador, jornalista e ensaísta. Estudou Sociologia, Estudos Alemães e Romanos em Paris, Zurique e Berlim. Em 2007, fundou a companhia International Institute of Political Murder (IIPM), onde desenvolve os seus trabalhos desde então. As suas produções e filmes (“Five Easy Pieces”, ”Montana”, “The Last Days of the Ceausescus”, “Hate Radio”, “City of Change”, “The Moscow Trials”, “The Zurich Trials”, “The Civil Wars”, “The Dark Ages”, “The Congo Tribunal” e muitos outros) foram convidados para integrar os programas dos maiores festivais do mundo, como o Festival d’Avignon, o Berliner Theatertreffen e o Kunstenfestival Brussels, entre outros.